sexta-feira, 22 de maio de 2026

90 anos

 

Nas margens da distração tudo me caí das mãos

ferramentas de carpinteiro, livros, maças, olhos de peixe 

Oiço-te dizer “vai com jeitinho” quando não tenho engenho

com o óleo dos motores, nem feição para as curvas da vida.


Os teus pinheiros crescem à tua procura,

os cafés continuam a acumular pó de sonambulismo

os vizinhos envelhecem mais rápido que o prédio

enquanto a casa espera-te para adormecer de vez.


Já ninguém pergunta por ti ou pelas tuas pernas cansadas,

excepto eu, quando barafusto com Deus, 

junto às fotografias onde sorris

numa sessão de ritmos perdidos.


Sabes Pai, passei a gostar de açorda alentejana!

como não estás cá para casar os coentros com o alho e azeite…

a punho, a vida dilui-nos sem nos apercebermos.



quinta-feira, 21 de maio de 2026

A memória dos escudos






Naquele tempo o dinheiro tinha outro custo, outra face, outra personalidade. 
Lembro-me do que podia comprar com esta fortuna. Os escudos eram escassos e eram bem tratados, entre mãos que  subtraiam com mais frequência que somavam. Era fácil contar o dinheiro, porque eram poucas moedas e notas, quanto mais contos de mil reis. Hoje encontrei estas notas numa caixinha de outro tempo, com fotografias de quem já não preenche o suspiro nos bons dias. Naquele tempo a vida não era nada fácil. O pouco custava muito. 
Vendo bem as coisas, nós éramos mais do que somos agora, mais fortes, mais novos, éramos mais à mesa a fazer barulho com os talheres, talvez por isso doesse menos e rir fosse um exercício que custasse tão pouco.

domingo, 3 de maio de 2026

730 dias



730 dias pregados no céu da boca

a tua ausência é uma ferida constante,

sangue lento num viver dormente,

e de tanto te lembrar longe,

imagino-te presente.


acordo sobressaltado na ilusão

que habitas os escombros

dos meus sonhos, em acenos

irreais de tão próximos,

vives no intervalo imaterial 

das pétalas desta casa sempre tua.


e dos desamores em que caí...

por mulheres imperfeitas na sua perfeição,

não haverá abismo tamanho

que se assemelhe ao negrume 

do perder Mãe,

repetitamente, todos os dias,

em que adormeço um pouco menos vivo.







90 anos

  Nas margens da distração tudo me caí das mãos ferramentas de carpinteiro, livros, maças, olhos de peixe  Oiço-te dizer “vai com jeitinho” ...