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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O Natal também é para orfãos

 

Luto filho da Mãe! Agradeço, mas não aceito convites passar a consoada com ninguém. Durante mais de cinquenta anos celebrei esta época pela minha Mãe, pelo meu Pai, pelo nascimento do menino Jesus. A nossa união. Na nossa pequena casa, tão humilde quanto acolhedora. Éramos um presépio vivo cheio de imperfeições e disfunções familiares O meu Pai era carpinteiro e gostava das luzinhas coloridas que enfeitavam a árvore e a mesa com filhoses e rabanadas brilhantes. Adormecia sereno a olhar para a televisão. A minha Mãe era funcionária pública sempre atarefada na cozinha, de volta das couves e do bacalhau, punha a mesa e arrumava o que eu desarrumava. De manhã trocávamos beijos em forma de presentes. O tempo não volta a ter o mesmo sabor.

Hoje não estou sozinho. Para além dos periquitos e das plantas, tenho a companhia dos espíritos que habitam todo este espaço divisível.  Este é o segundo ano que passo sem os meus pais. Fisicamente, falando, pois sinto que me sussurram ao ouvido palavras quentes e raspanetes protectores. Um arrepio na pele de quem nos passa a mão pela nossa falésia.

Cá em casa não há embrulhos coloridos prestes a rebentar de curiosidade. Ou melhor, recebi o melhor presente possível por parte da médica de família - saúde temporária em formato de comprimidos para a doença crónica de estar vivo. Não há presépio ou árvore de plástico com luzes irrequietas, fitas multicolores e um estrela sempre torta no topo. Tenho que reaprender a gostar desta época. Talvez para o ano frequente um curso no Christmas Institute. Acredito em Jesus.  Tenho fé, mas desconfio de muitos Homens.

O menino Jesus de barro trabalhou todo o ano para se exibir belo e sem falhas na pintura, juntamento com os outros elementos do presépio, na esperança de ocuparem, em cima da mesa da sala, o topo do nosso mundo. O mundo é liderado por fazedores de guerras e eu já não tenho mesa da sala onde possa sentar amigos arrependidos. Peço desculpa às figurinhas de barro, porém não tive coragem para vos libertar do escuro desse caixote empoeirado. O mundo é um lugar cada vez mais sombrio e em rota de colisão com o umbigo dos senhores da guerra. Contudo, tenho fé no brilho da manhã. Beijo um crucifixo que trago ao pescoço e procuro um suspiro em forma de parágrafo de esperança.

Ainda bem que estou a trabalhar no dia de Natal. Já vos tinha dito que trabalho por turnos. Não é mau de todo. Evito algumas estirpes de virus disfarçados de humanos. Em casa também fico doente mas isso é outra queda.

Com o computador na mão percorro uma avenida deserta dentro do meu casulo. Busco um local com luz natural. A janela grande da sala será o meu escritório, o meu espaço aberto para o mundo. Não oiço o barulho enervante dos vizinhos do andar de cima. Foram para a terra. Lá fora, procuro pessoas para inventar histórias piores que as minhas. Não vejo ninguém a passear o cão e entretenho-me com os pássaros que voam no jardim. Os melros continuam a não saber o que é o Natal e não é por isso que não são felizes no seu luto. 

Depois do dia de Reis, a minha Mãe embrulhava em papel de jornal os bonecos do presépio, a árvore de Natal, e colocava tudo dentro de um caixote de cartão na despensa. Até para o ano "natalinos"! A caixote nunca mais foi aberto. Sempre que olho para ele crescem-me os braços e o chão torna-se instável e madrugador. 


sábado, 21 de dezembro de 2024

Conto de Natal - O colecionador de presépios

 

Uma vasta coleção de presépios, provenientes dos mais diversos cantos do mundo e concebidos com os mais variados materiais alegravam os seus olhos. Todos os anos elegia um conjunto de figurinhas para as festividades. No ano passado, o presépio eleito foi esculpido em osso, muito bem elaborado, até parecia que as estatuetas sorriam com as sombras. Todos os anos fazia pequenos embrulhos para oferecer a quem já não os podia receber. Junto ao presépio ele abria os presentes dirigidos aos mortos e rezava. Era uma forma de dar vida aos vários nomes com que batizava a solidão.

Nos primeiros dias de dezembro, de manhã cedo, dirigia-se a uma quinta abandonada onde enchia de musgo uma saca de serrapilheira. Ele sabia da importância do musgo para reter a água e prevenir a erosão do solo. Porém, as suas figuras do presépio precisavam de um local onde pudessem brilhar. Quando encontrou uma mancha de musgo prometedora, esgadanhou o solo e em pazadas cegas encheu a saca com grandes quantidades da plantinha verde, caruma, pinhas e tudo o mais que coubesse na boca apressada da pá. Certificou-se que ninguém o tinha visto e fugiu para casa. Fechou-se dentro de si e esperou pela sabedoria da noite.

A sala estava preparada para receber as personagens do presépio. Não havia lugar para uma árvore com uma estrela no topo, era um desperdício artificial de tempo. Por isso, apressou-se a forrar a tijoleira com um plástico para depois escolher e montar o cenário deste ano.

Foi buscar o musgo. Quando passava no corredor reparou em várias gotas que insinuavam um trilho. Acendeu a luz da dispensa e os seus maxilares estalaram de espanto. Tudo remexido, fora do lugar e da ordem das coisas. A saca estava furada, o musgo derramado, juntamente com os embrulhos esventrados. A dispensa fora violada. Aquele cheiro? A quem pertenceria aquelas gotas de urina?

Correu para a cozinha em busca de algo para imobilizar o intruso. O seu canivete digno de qualquer alentejano não impunha respeito suficiente. A pá que ainda continha restos de terra daria uma boa arma. Entrou na exígua dispensa e com muito cuidado removeu todos os sacos que estavam no chão. Nada. Olhou para as prateleiras que continham os presépios e os embrulhos e nisto ouviu um esgadanhar animal. Tocou em todos os sacos para que o intruso se pusesse a jeito de uma valente pazada. Silêncio.

Dirigiu-se ao seu quarto e retirou da escrivaninha uma lanterna com duas funções. Desligou a luz e acendeu a primeira função da lanterna. Um círculo de luz quente iluminou os seus passos. Depois ligou a segunda opção e um espectro de luz ultravioleta fez brilhar as gotas de urina. Dentro da dispensa apontou o feixe luminoso para as prateleiras. A caixa de presépio que continha a sagrada família dentro de uma rocha oca brilhava de azul-celeste. A caverna feita de geodo mineral refletia o espectro ultravioleta, enquanto um pequeno ouriço-cacheiro brincava de menino Jesus. Ele sorriu. A escolha estava feita.

 

Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...