quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A respiração dos electrodomésticos

 


da voz do teu velho rádio 

ainda oiço suspiros 

relatos desportivos

golos num fim de tarde, 

meu eterno Pai.

 

guardo as tuas dedadas no ecrã 

tátil monitor social

tablet que te fazia sorrir 

com os netos que não te dei,

meu céu de Mãe.

 

hoje voltei a ligar todos os vossos aparelhos

na esperança que a electónica 

anima-se o espelho vazio.


domingo, 28 de dezembro de 2025

De volta a 1946

 

Minha Mãe, ontem fazias 79 anos

hoje faz 79 anos que foste registada.

em 1946 o mundo era outro,

menos a conjugação da saudade e do amor.

 

Ontem fui ao cemitério mesmo sabendo que não querias.

trago a garganta atada ao somatório dos dias sem ti,

no cemitério encontrei poucos caminhantes,

pouparam-me o embaraço deste lacrimoso andar.

 

Mesmo assim, desejei um bom ano a duas senhoras

habituadas ao local e às lides dos mortos,

o tempo desafazia-se em gestos incompletos, cinzentos,

o sibilar das aves obrigava-me a olhar para cima, diz-se céu!

 

Como todos os anos, ofereci-te duas rosas.

custa-me não ouvir: "são bonitas!"

De resto, nada de novo, dizem que o Natal já passou,

será por isso que as camisas debotaram luto e a pele sangrou rugas?



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O Natal também é para orfãos

 

Luto filho da Mãe! Agradeço, mas não aceito convites passar a consoada com ninguém. Durante mais de cinquenta anos celebrei esta época pela minha Mãe, pelo meu Pai, pelo nascimento do menino Jesus. A nossa união. Na nossa pequena casa, tão humilde quanto acolhedora. Éramos um presépio vivo cheio de imperfeições e disfunções familiares O meu Pai era carpinteiro e gostava das luzinhas coloridas que enfeitavam a árvore e a mesa com filhoses e rabanadas brilhantes. Adormecia sereno a olhar para a televisão. A minha Mãe era funcionária pública sempre atarefada na cozinha, de volta das couves e do bacalhau, punha a mesa e arrumava o que eu desarrumava. De manhã trocávamos beijos em forma de presentes. O tempo não volta a ter o mesmo sabor.

Hoje não estou sozinho. Para além dos periquitos e das plantas, tenho a companhia dos espíritos que habitam todo este espaço divisível.  Este é o segundo ano que passo sem os meus pais. Fisicamente, falando, pois sinto que me sussurram ao ouvido palavras quentes e raspanetes protectores. Um arrepio na pele de quem nos passa a mão pela nossa falésia.

Cá em casa não há embrulhos coloridos prestes a rebentar de curiosidade. Ou melhor, recebi o melhor presente possível por parte da médica de família - saúde temporária em formato de comprimidos para a doença crónica de estar vivo. Não há presépio ou árvore de plástico com luzes irrequietas, fitas multicolores e um estrela sempre torta no topo. Tenho que reaprender a gostar desta época. Talvez para o ano frequente um curso no Christmas Institute. Acredito em Jesus.  Tenho fé, mas desconfio de muitos Homens.

O menino Jesus de barro trabalhou todo o ano para se exibir belo e sem falhas na pintura, juntamento com os outros elementos do presépio, na esperança de ocuparem, em cima da mesa da sala, o topo do nosso mundo. O mundo é liderado por fazedores de guerras e eu já não tenho mesa da sala onde possa sentar amigos arrependidos. Peço desculpa às figurinhas de barro, porém não tive coragem para vos libertar do escuro desse caixote empoeirado. O mundo é um lugar cada vez mais sombrio e em rota de colisão com o umbigo dos senhores da guerra. Contudo, tenho fé no brilho da manhã. Beijo um crucifixo que trago ao pescoço e procuro um suspiro em forma de parágrafo de esperança.

Ainda bem que estou a trabalhar no dia de Natal. Já vos tinha dito que trabalho por turnos. Não é mau de todo. Evito algumas estirpes de virus disfarçados de humanos. Em casa também fico doente mas isso é outra queda.

Com o computador na mão percorro uma avenida deserta dentro do meu casulo. Busco um local com luz natural. A janela grande da sala será o meu escritório, o meu espaço aberto para o mundo. Não oiço o barulho enervante dos vizinhos do andar de cima. Foram para a terra. Lá fora, procuro pessoas para inventar histórias piores que as minhas. Não vejo ninguém a passear o cão e entretenho-me com os pássaros que voam no jardim. Os melros continuam a não saber o que é o Natal e não é por isso que não são felizes no seu luto. 

Depois do dia de Reis, a minha Mãe embrulhava em papel de jornal os bonecos do presépio, a árvore de Natal, e colocava tudo dentro de um caixote de cartão na despensa. Até para o ano "natalinos"! A caixote nunca mais foi aberto. Sempre que olho para ele crescem-me os braços e o chão torna-se instável e madrugador. 


A mão da costureira

 


E se as agulhas ganhassem vida...

agora o dedal procura o seu confessor,

a cabeça do alfinete arde de saudade,

por lábios molhados que a segurem.

 

as baínhas das calças sem pernas de andor

os novelos desfiados enrolados em gatos tesoura,

imaginários, como a cor de uma sombra perdida,

"uns pontinhos no pijama velho - e dura mais um ano!"

 

aquele elástico-memória sempre branco demais

os botões casamenteiros das camisas que procuram casa,

dentro da caixa de sonhos por reparar,

anseiam pela mão de costureira íngreme até ao fim.



quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Lagoa de Melides



No regaço da lagoa existe um ilhéu

com o agitar da ladainha ao vento suão

voam aves pela memória do céu

amansando águas num arrepio de mão


Pela força do arroz crescem novenas

e quando à lagoa chega o barqueiro

as moças destas terras morenas

voam pelas dunas num feitiço matreiro

 

Na vida tudo passa nada fica 

pela lagoa tudo voa e edifica

como se fosse este amor o primeiro.






terça-feira, 11 de novembro de 2025

Oftalmologista

 

Naquele tempo onde pouco era suficiente

fomos ao oftalmologista, eu não percebia,

quando chegámos a casa, sentado no sofá,

tapavas-me a vista direita e eu não entendia.


Porque me pedias para contar

quantos dedos a tua mão acenava de lonjura?

uma massa disforme baloiçava no nevoeiro vivo,

num vislumbre sombrio, eu não percebia....


Porque choravas perante a minha cegueira,

se me bastava o tacto do olho direito

para te sentir tão inteiramente bonita,

Sempre foste Mãe!

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O caminho desobediente

 


Camisa preta em cima da cama,

calças escuras engomadas,

corpo lavado em água tépida,

e barba escanhoada.


as roupas ajustam-se à pele,

os músculos procuram sustento,

na luz que faz as borboletas voar, 

de gesto perfumado, quase me apetece rir!


saiu de casa com encontro marcado

compro um ramo de rosas vermelhas,

o carro conduz-se pelos soluços da velocidade;

chego ao local combinado: está sol, o ar é negro.


sei que não me querias a caminho do cemitério,

mas que remédio tenho eu senão desobedecer? 

estou aqui, quase transparente, de boca seca,

falo contigo neste domingo de desencontrados. 





A respiração dos electrodomésticos

  da voz do teu velho rádio  ainda oiço suspiros  relatos desportivos golos num fim de tarde,  meu eterno Pai.   guardo as tuas dedadas no e...