Lisboa 5:20 - Aeroporto de Lisboa um formigueiro de vidas apressadas.
Após duas horas e meia de voo, saímos do aeroporto e já escutava um murmúrio
constante. Uma voz de vidro, num apelo em tom de desabafo. Repetitivamente, por cima do meu ombro, um sibilar manso implorava: "vamos beber uma" - A vontade de beber uma cerveja e as horas madrugadoras a que nos levantámos, faziam de nós mortos-vivos por uma gota de cevada fermentada e...
Mal pusemos os pés em Dublin, a sede
era tanta que entrámos no primeiro
pub que ostentava o símbolo da
Guiness, a nossa musa inspiradora desta aventura. Um pub
típico, tão típico, que as pessoas pareciam estar coladas àquele cenário há
mais de cem anos. Dois senhores gordinhos derretiam o tempo a um canto com teias de aranha seculares. Um senhor fininho, por sua vez, com elevado andamento
alcoólico para a hora do dia, levantava-se e sentava-se de minuto a minuto. Ao
fundo do bar uma senhora tão antiga quanto anafada, de vestes saídas de um
conto Vitoriano, bebia cerveja e deixava a espuma cair pelo queixo, enquanto
olhava para o nosso colega mais alto, noviço; único que ousou a usar
bigode. Fez furor o meu amigo Tuga de bigode.
Saímos com o travo da primeira Guiness na boca e
fomos deixar as malas ao apartamento alugado na Parnel Street, conhecida por ser o centro da culinária asiática da cidade. Um
bairro multicultural, multidisciplinar (barbeiros, comida chinesa, coreana e brasileira, telemóveis, modelos humanos de gesso, um hotel com um cartaz de bandas de death metal e
venda de alguns produtos proibidos em Portugal), tudo calmo, sem conflitos,
ruas limpas, odores intensos e olhares de tons únicos.
Sem as malas, mais
leves e com espírito lusitano descobridor, comenos num takeaway rico em colesterol
e picante. Senão fosse o molho, o kebab
sabia a borracha de uma câmara de ar de triciclo. Calorias repostas, humor reciclado.
Ligámos o GPS do telefone e fomos em busca da Trinity College.
Longa caminhada, mas sempre em frente, debaixo
de um céu cinzento, ocupado em aturar nuvens birrentas, enquanto o vento desenhava pequenas cristas no rio Liffey.
A Trinity College Dublin e a Old Library
Trinity College
Chegámos
à Trinity College com intuito de ver o Book of Kells, um dos maiores tesouros
culturais e artísticos da Irlanda, expoente máximo da arte celta. Este livro contém
os quatro Evangelhos do Novo Testamento (Mateus, Marcos, Lucas e João),
transcritos por monges celtas por volta do ano 800 d.C.
Num
quarto escuro, protegido por vidro e vários seguranças, ali estava o magnífico Book of Kells. Um autêntico tesouro, exibindo duas páginas com letras e símbolos celtas em
cores vibrantes. Por razões de segurança não foi possível fotografar.
Ocasionalmente, as páginas do livro são mudadas, há quem faça várias visitas
num ano, na esperança de ver novas imagens do Novo Testamento do Book of Kells.
A Virgem e o Menino na sétima folha do Livro de Kells.
Folha 34 do Livro de Kells, conhecida como a Página do Monograma Chi Rho (Chi Rho page) cuja tradução: "Ora, o nascimento de Cristo foi assim
Uma biblioteca sem livros
Ainda ofuscados pela beleza secreta dos símbolos cetas, subimos umas escadas e entrámos noutra dimensão de luz refletida em estantes de madeira secular. Iniciámos a visita à maior biblioteca da Irlanda com mais de 6 milhões de volumes. O corredor central denominada por Long Room, deixava-nos maravilhados com esta imponente obra de arquitetura neoclássica em carvalho e com o tecto a assemelhar-se a uma antiga igreja medieval.
Long Room
Infelizmente, apenas as duas primeiras sessões da biblioteca continham
livros, as restantes estavam vazias. O motivo será prevenir, antes que seja tarde. O terrível incêndio que destruiu o teto da Catedral de Notre-Dame em Paris, em 2019, foi o grande factor de aceleração para realizar obras urgentes na Old Library do Trinity College.
No momento da nossa vista decorria um projecto de restauro e conservação nos sistemas de climatização e anti-incêndio. Até ao final desse projecto, todos os livros serão retirados, deixando a biblioteca completamente despida. Se querem visitar a biblioteca com alguns livros é agora!
Como referi anteriormente, o livro mais antigo, com mais de 1200 anos, é o Book of Kells, ilustrado por
monges celtas. O acervo da biblioteca reúne ainda uma coleção de século XIV, sendo o livro
mais antigo dessa coleção impresso no ano 1351. No meio do corredor da Long Room é possível observar a harpa mais antiga da Irlanda. A Harpa de Brain Boru, homenagem ao rei da Irlanda que derrotou os Vikings.
Harpa de Brain Boru
Actualmente, esta harpa serve de logótipo da cerveja Guinness e também como brasão nacional
da Irlanda patente nas moedas de Euro irlandesas e passaportes. Ao percorrer o corredor, entre livros invisíveis senti-me aconchegado pela atmosfera rarefeita do improvável. Imaginei o que não seria todas as sessões preenchidas com histórias de livros ainda não escritos. Após algumas fotos onde o espancamento do ego foi triunfal, vulgo selfie, senti-me insignificante e ridículo perante o busto de desprezo de Homero.
Escadaria The Long Room
Guinness Storehouse
No segundo dia visitámos o museu da Guiness. Um edifício
fabril com sete andares, onde cada piso explicava de forma interativa o fabrico
de cerveja. Creio que não eram necessárias tantas escadarias para
explicar o fabrico da cerveja, porém concordo com a necessidade de rentabilizar
o produto nacional. Ora qui fica uma sugestão para a criação de um museu sensorial
dos pastéis de Belém. Sei que temos uma amostra na casa dos pastéis de Belém, mas
seria interessante considerar algo em grande, com pastéis de nata gigantes, azulejos,
guitarras portuguesas, como os irlandeses fazem com a cerveja em sete pisos de
glória e paciência. Alguns momentos de cada andar.
Não queria acreditar! Então não é que a constituição desta cerveja é de 95% água. Por mais que bebas ficas sóbrio e cheio, talvez por isso mesmo e com alguma tristeza desta lucidez plena.
Campanha publicitária de 1996 da Guinness "Uma mulher precisa de um homem como um peixe precisa de uma bicicleta" apropriando-se do famoso lema feminista para promover a cerveja.
Voltando ao museu. Gostei bastante de recordar as ferramentas usadas no fabrico dos barris, porque o meu avô era tanoeiro. As mãos e os utensílios que moldam a madeira. Tornam o involucro estanque ao mesmo tempo que conservam o segredo e o espírito da bebida. Senti vontade de voltar a Ferreira do Zêzere e ouvir as histórias do meu avô Joaquim Bravo. Noutro patamar dimensional, sei continua a esculpir as árvores do eterno.
Em seguida, entrámos numa sala branca estilizada
e cheia de vapores, na qual demos uso ao olfato e às papilas gustativas para
sentir o nascer da sede pela primeira cerveja. Foi um apenas um aperitivo. De
copinho na mão, entrámos outra sala especialmente criada para ensinar a beber
cerveja Guiness com estilo e história.
Sim! Ensinar a beber!Primeiro um gole, deixam-se alguns segundos na boca, até sentir o sabor da cevada e… deixamo-nos ir. Tudo
isto numa sala escura, ladeada por quadros antigos dos fundadores desta arte de
fermentação. Os rostos daquelas pinturas olhavam para nós com a sobriedade de
quem já viu isto acontecer milhentas vezes. O bilhete englobava uma cerveja no
último andar do edifício com vista panorâmica para a capital irlandesa. Observamos o assentar das camadas da cerveja,
agarrámos na mesma como se fosse um troféu conquistado após uma maratona de muitos quilómetros.
Por fim, tentámos encontrar uma mesa e umas
cadeiras para descansar os nossos sacos de ossos e molhar os beiços no elixir.
Como masoquistas que somos, saímos pelas escadas, não fosse o elevador avariar. Depois foi caminhar pelas catedrais e jardins de uma cidade que nos acariciava com vento frio do rio Liffey.
A noite no Temple Bar
Os irlandeses às cinco da tarde esgotam as esplanadas.
Saem do trabalho com o intuito de conviver e beber. Muita gente nova sem frio
na venta, de corpos resistentes a qualquer maleita que não seja tratada com uma
jovial gargalhada e dez cervejas. Povo bem-disposto, sempre pronto a cantar os refrões
orelhudos. Em cada bar que entrávamos tínhamos música ao vivo. Geralmente, uma
voz e uma guitarra e sempre o mesmo reportório. Sempre as mesmas melodias. Como se
os direitos de autor os obrigassem a cantar apenas aqueles temas. A canção
dos Beatles Hey Jude, foi um hino repetido até à exaustão. Após uma
situação de aperto, lembro-me de ouvir, na casa de banho do Temple Bar, cinco
minutos de Beatles. Quando saí tinha uma guarda de honra mal disposta, gente que também precisava de aliviar a tripa,
uma fila de homens que devia contornar o quarteirão e atravessar a ponte do canal. Com
o olhar pregado ao chão, dirigi-me à nossa mesa, onde os meus colegas de trabalho
trocavam palavras em português com uma elegante senhora belga que tinha vivido em Lisboa.
Cosmopolita e divertida Dublin, servia de passagem a uma palete cultural sempre
em movimento e renovação. No regresso ao alojamento, alguns jovens eram
derrotados pela bebida e pelos ácidos, uma imagem nada agradável, porém aqui e
ali, acompanhados pelo olhar atento das autoridades.
Ao terceiro dia a última volta
Pelas 10:00 deixámos o apartamento para ir beber um capuchino e comer um muffin num franchisado, igual em qualquer lado do mundo, nada típico, uma marca global que se repete aqui ou em Lisboa ou em San José. Infelizmente, por falta de tempo não provámos a comida irlandesa. Depois do acúcar o estomago ficou aconchegado, facultando energia para calcorrear os
cantos ainda não mapeados de Dublin e das suas catedrais e igrejas. O que se segue são monumentos monocromáticos como o olhar de quem os relembra.
Igreja de Santo André de estilo neogótico vitoriano concluída em 1866
Catedral da Santíssima Trindade fundada em 1028 pelo rei viking Sitric. Mais actual, 2015, é a escultura de bronze de um homem tapado com uma manta num banco de jardim. Obra que nos convida a refletir sobre a condição humana "Jesus Cristo sem abrigo", do escultor Schmalz.
Trinity College Dublin, a universidade mais antiga da Irlanda fundada em 1592
Neste movimentado cruzamento, enquanto a senhora que passeia o cão espera e espera que o sinal mude. Pudemos ver ao centro a Ponte de Christ Church, à esquerda da senhora e do seu cão: Dublinia, museu interactivo dedicado à história viking e medieval de Dublin, à direita: Christ Church Cathedral um edifício medieval fundado pelos vikings em 1030.
Ponte pedonal de Christ Church que une a Catedral da Santíssima Trindade (Christ Church Cathedral) e o museu Dublinia.
Catedral de São Patrício é a maior igreja da Irlanda. Fundada em 1191 e fazendo-nos sentir pequenos perante a imponente arquitetura gótica. O autor do livro "As viagens de Gulliver", Jonathan Swift, foi reitor desta catedral, encontrando neste espaço, entre madeira e pedra calcária, o aconchego para o seu descanso eterno.
Pormenor de uma janela gótica da torre sineira da Catedral de São Patrício.
Gárgulas góticas da Catedral de São Patrício. As gárgulas tèm uma dupla função. A primeira obedece ao propósito prático e mundano de escoar água das chuvas para longe das paredes da catedral. A segunda motivação é mais espiritual e tenta cumprir o desígnio de afugentar os maus espíritos do templo com as suas feições grotescas. Fiquei encantado com o ar destas criaturas, que por vezes ganham vida e arranham os meus dias encobertos com disparates.
Igreja de Santo Agostinho e São João Batista. Obra concluída no final do século XIX, da qual se destaca a sua torre sineira com mais de 60 metros. É um dos símbolos maiores do revivalismo gótico da Irlanda.
A vida secreta dos jardins
Que biodiversidade puderei encontrei encotrar nos jardins e espaços verdes de Dublin? Com o percorrer da cidade a pé, tive a oportunidade de dar asso à minha veia de observador da natureza. Documentei algumas espécies de aves que de tão perto que estavam, quase caímos num auto retrato socialmente incógnito.
Gralha-cinzenta (Corvus Cornix) muito comum nos jardins, como tal acostumada a presença humana, devagar sem grande espalhafato, permitiu alguma aproximação. Lá estava eu deitado na relva, qual sniper passarinheiro. Nesta viagem não trouxe qualquer máquina fotográfica comigo, apenas fiz-me acompanhar das lentes meu velhinho telemóvel.
Este estorninho-malhado juvenil (Sturnus Vulgaris) andava com os seus irmãos à procura de comida no meio de um feira de artesanato, nada incomodado com quem passava. Valente rapaz, desviava-se de levar uma pisadela de quem por ali existia. Pareceu-me ouvir os estorninhos a cantar uma canção dos U2.
Tendo como pano de fundo um canal do rio Liffey, o guincho-comum (Chroicocephalus Ridibundus) saboreava os ameaços soalheiros, que de quando em vez, lembravam-nos a luz de terras lusitanas. Por cada raio de sol que irrompia em Dublin festejava-se a loucura de um verão tão desejado quanto longínquo.
A contabilidade do esforço
No primeiro dia fizemos 14 quilómetros pelas ruas planas da capital irlandesa, num percurso divido entre a busca e o deslumbre. No segundo dia caminhámos 11 quilômetros e no terceiro dia, as últimas horas em solo irlandês, foram uma autêntica vergonha, com uns míseros 7 quilômetros. No total andámos 1,0075 metros por minutos. Reflitindo seriamente neste número, concluo que fomos uns cágados mandriões!
Verdade seja dita; ao tempo que estive em Dublin, tenho que subtrair as horas de sono reclamadas pelo meu sistema cardiovascular. Os meus amigos de viagem estavam frescos e não se importavam de somar mais umas horas há maratona. Valentes e sem sinais de cansaço, prontos para subir ao cume da noite irlandesa. Ao contrário, eu estava derreado numa derrrota feliz. Acho que já nasci cansado, mas gosto de provocar a minha orgulhosa costela alentejana com uma valente caminhada.
Quando se pensa no regresso a casa o caminho é silencioso. Não exige explicações nem palavras esféricas ou ruas circulares. As nuvens que o digam.
Para o aeroporto, apanhámos um estranho taxista que mostrava-nos o telemóvel com vídeos de ataques a irlandeses, enquanto respondia a mensagens como quem tricota um cascol para o inverno. O taxista conduzia pelo meio do trânsito caótico numa tarde de sexta-feira com chuvinha parva. Dentro do carro, nós éramos 5 portugueses recém raptados, amordaçados aquela realidade. Sobrevivemos com um sorriso.
Por fim no aeroporto, fechar os olhos e rebobinar os momentos inesquéciveis. Na bagagem trouxe boas memórias da
cidade, das suas gentes e do convívio saudável entre colegas de trabalho. Esta viagem serviu para esquecer o nosso dia a dia onde discutimos o sexo do bit e do byte. Em Dublin fomos nós, sendo novos outros, quase desconhecidos como amigos. Já em Portugal, horas depois, uma valente gripe levou-me a um estado
febril, do qual só sai para ouvir em contínuo ecoar: Hey Jude... Hey Jude!
Agradeço aos meus caros amigos a companhia, mantendo elevado o nível de camaradagem, sem vazarmos olhos e muito menos estilhaçar dentes à bofetada. Chegámos inteirinhos a casa.
Lembro-me de ver o Jorge Palma numa esplanada nas Picoas em Lisboa, a contemplar fotografias relevadas do negativo. Fotos que ainda estavam dentro do envelope da kodac, num formato 10x15. Naquele tempo cada fotografia era uma surpresa. O Jorge Palma estava completamente enternecido com o que via. A luz do dia desenhava acordes felizes no rosto do músico Não quis entrometer-me para pedir um autógrafo, naquele tempo não havia selfies e ainda bem. Não me aproximei, apenas fiquei observar a margem radiante do poeta. Foi um dia completo e feliz. Tinha presenciado pela primeira vez, uma voz, um poema, uma melodia, num ser vivo, sem que houvesse música ou palavras no ar.
As maldades da vida levaram-nos o homem. Fica a voz e as melodias a ressoar por essas estradas invisíveis. O álbum "Só" de 1991, foi gravado com um microfone em cima da fita. É sem dúvida um dos maiores tesouros da música portuguesa. O álbum Palma's Gang, ao vivo no Johnny Guitar, de 1993, mostra-nos a vertente mais rockeira do Jorge Palma e conta com a colaboração do Kalu, Alex, Flak e Zé Pedro. Noutra dimensão, o Jorge e o Zé, vão formar uma nova banda.
Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquela tarde de junho, depois das cinco da tarde, uma vez que a minha pele não admite grandes cavalgadas solares. Numa pequena mochila coloquei um romance que ando a ler antes de dormir, uma máquina fotográfica com mais de dez anos, com uma objectiva que me dava garantias de tirar fotografias com várias distâncias focais, desde paisagem, quase macro e teleobjectiva, sacrificando a qualidade da imagem, uma vez que não faria nada bem. O importante era sair, caminhar, ler com a cabeça e fotografar, nem que fosse uma gaivota em cima de uma mosca. Da minha casa até à praia são perto de 3 quilômetros, que se fazem muito bem, sem grandes subidas, numa passada calma. Assim foi. Cheguei às imediações da praia de Carcavelos, aproveitei uma sombra debaixo de uma árvore e desfolhei o romance que não me puxou assim tanto. Mesmo assim, ainda li dez páginas, alternando impacientemente de posição entre sentado, deitado e de pé. Arrumei o livro porque, à minha frente, uma borvoleta vanessa cardui aproveitava o sol sem se preocupar com protetor solar. Registei o lepidóptero e reparei num bando de mainás-de-crista a voar bem perto do parque de estacionamento, pousando na relva, reservada aos incautos transeuntes e ao mijo dos cães, com a condescendência dos educados tutores. Arrumei as coisas na mochila e fiz-me ao caminho em busca do bando dos mainás. A relva é um lugar perigoso. Prefiro os rochedos com cabeleira de limos, molhados e escorregadios pelo sal da maré.
Os juvenis aguardavam indicação dos progenitores para irem a banhos.
O voo do mainá-de-crista sob a maré vazia
Com a maré vazia, a família de mainás-de-crista brincava como crianças que descobrem as virtudes da hora dourada. Não estava à espera de ver um bando de seis mainás a aproveitar a maré vazia para alimentar-se de pequenos crustáceos. Estas aves exóticas são oriundas de latitudes asiáticas e foram introduzidas no nosso país nos idos anos 90, talvez resultante de fuga de cativeiro, e por cá têm estabelecido colônias estáveis.
Depois de fotografar estas curiosas aves pretas de asas brancas e crista punk, aceitei o convite da maré para molhar os pés e o rosto. Tanto mais, porque tinha uma estranha impressão na vista, como se uma pestana se tivesse atravessado no olho. Passei o rosto por água várias vezes, contudo o desconforto ocular mantinha-se. Ao ponto de não querer assistir ao pôr-do-sol, antecipando o regresso a casa em passo acelarado. Uma vez chegado, observei o olho esquerdo ao espelho e não identifiquei nenhum sinal de que algo me tivesse a causar esta névoa, um travessão negro a cortar o campo de visão. Marquei uma consulta para o dia seguinte e o que foi uma agradável caminhada, leitura, contacto com a natureza, transformou-se no deslocamento de retina do olho esquerdo. Obrigando-me a uma intervenção cirúrgica, rematada com pontos e baixa médica. Gotas, muitas gotas que caem lentamente na impaciência da hora. Aqui estou eu deitado, com um espelho acoplado ao topo da cabeceira da cama, para acertar no olho aberto, vermelho rasgado, sangue.
Escrevo isto, com olho esquerdo inflamado, com pontos na esclera (parte branca do olho), sem dores e com vontade de voltar à praia e às caminhadas ornitológicas e ficções literárias. Porém, desta vez, sem hospitais, nem outras descobertas cardíacas pelo meio. Nunca se sabe o que os bolsos da vida nos reservam.