domingo, 9 de agosto de 2026

Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

 

mainá-de-crista Acridotheres cristatellus



Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquela tarde de junho, depois das cinco da tarde, uma vez que a minha pele não admite grandes cavalgadas solares. Numa pequena mochila coloquei um romance que ando a ler antes de dormir, uma máquina fotográfica com mais de dez anos, com uma objectiva que me dava garantias de tirar fotografias com várias distâncias focais, desde paisagem, quase macro e teleobjectiva, sacrificando a qualidade da imagem, uma vez que não faria nada bem. O importante era sair, caminhar, ler com a cabeça e fotografar, nem que fosse uma gaivota em cima de uma mosca. Da minha casa até à praia são perto de 3 quilômetros, que se fazem muito bem, sem grandes subidas, numa passada calma. Assim foi. Cheguei às imediações da praia de Carcavelos, aproveitei uma sombra debaixo de uma árvore e desfolhei o romance que não me puxou assim tanto. Mesmo assim, ainda li dez páginas, alternando impacientemente de posição entre sentado, deitado e de pé. Arrumei o livro porque, à minha frente, uma borvoleta vanessa cardui aproveitava o sol sem se preocupar com protetor solar. Registei o lepidóptero e reparei num bando de mainás-de-crista a voar bem perto do parque de estacionamento, pousando na relva, reservada aos incautos transeuntes e ao mijo dos cães, com a condescendência dos educados tutores. Arrumei as coisas na mochila e fiz-me ao caminho em busca do bando dos mainás. A relva é um lugar perigoso. Prefiro os rochedos com cabeleira de limos, molhados e escorregadios pelo sal da maré. 


Os juvenis aguardavam indicação dos progenitores para irem a banhos.


O voo do mainá-de-crista sob a maré vazia


Com a maré vazia, a família de mainás-de-crista brincava como crianças que descobrem as virtudes da hora dourada. Não estava à espera de ver um bando de seis mainás a aproveitar a maré vazia para alimentar-se de pequenos crustáceos. Estas aves exóticas são oriundas de latitudes asiáticas e foram introduzidas no nosso país nos idos anos 90, talvez resultante de fuga de cativeiro, e por cá têm estabelecido colônias estáveis.








Depois de fotografar estas curiosas aves pretas de asas brancas e crista punk, aceitei o convite da maré para molhar os pés e o rosto. Tanto mais, porque tinha uma estranha impressão na vista, como se uma pestana se tivesse atravessado no olho. Passei o rosto por água várias vezes, contudo o desconforto ocular mantinha-se. Ao ponto de não querer assistir ao pôr-do-sol, antecipando o regresso a casa em passo acelarado. Uma vez chegado, observei o olho esquerdo ao espelho e não identifiquei nenhum sinal de que algo me tivesse a causar esta névoa, um travessão negro a cortar o campo de visão. Marquei uma consulta para o dia seguinte e o que foi uma agradável caminhada, leitura, contacto com a natureza, transformou-se no deslocamento de retina do olho esquerdo. Obrigando-me a uma intervenção cirúrgica, rematada com pontos e baixa médica. Gotas, muitas gotas que caem lentamente na impaciência da hora. Aqui estou eu deitado, com um espelho acoplado ao topo da cabeceira da cama, para acertar no olho aberto, vermelho rasgado, sangue.

Escrevo isto, com olho esquerdo inflamado, com pontos na esclera (parte branca do olho), sem dores e com vontade de voltar à praia e às caminhadas ornitológicas e ficções literárias. Porém, desta vez, sem hospitais, nem outras descobertas cardíacas pelo meio. Nunca se sabe o que os bolsos da vida nos reservam.




sábado, 8 de agosto de 2026

Temos Gatos a comandar a nato

 





Ao fundo do quintal o "Ti Manel" observava as videiras

protegidas por redes ante a ameaça dos pardais carteiros,

ouve o  grito do portão e o embate dos figos maduros na terra seca,

atento a quem chega antes do rasgo das uvas de setembro.

 

“Nina”, a gata amarela, é a sua companhia,

vadia minguante, como a lua a ensinou a ser,

dorme noutros alpendres e não aos seus pés,

o "Ti Manel" fala-me da dor ao cursar madrugadas.

 

somos parecidos na forma como confiamos nos felinos

admiramos as suas vibrissas, com a capacidade de interceptar dimensões

e estabelecer comunicação entre a solidão e os espectros vigilantes;

mas só a “Nina” e o “Ti Manel” colhem uvas nas figueiras siderais.

 

ao sair do quintal, não fiz barulho quase nenhum ao fechar o portão,

enquanto a "Nina" e o "Ti Manel" corrigiam a órbita deste satélite.




quarta-feira, 24 de junho de 2026

Insatisfeito


Falta-me não sei quê para ter não sei quanto

não sei como ou quando posso estar completo  

tenho tanto que não me chega o intento  

não me falta sustento em campo aberto


Tenho relógio com casas dentro

Labor em dia, carro de bois e jumento 

joias em cacos, fome de cama


Não me falta solar nem flama de astro ausente

quando ela vier, a tal ceiferia que a ninguém falha,

talvez aí fique satisfeito, mortinho de contente. 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

90 anos

 

Nas margens da distração tudo me caí das mãos

ferramentas de carpinteiro, livros, maças, olhos de peixe 

Oiço-te dizer “vai com jeitinho” quando não tenho engenho

com o óleo dos motores, nem feição para as curvas da vida.


Os teus pinheiros crescem à tua procura,

os cafés continuam a acumular pó de sonambulismo

os vizinhos envelhecem mais rápido que o prédio

enquanto a casa espera-te para adormecer de vez.


Já ninguém pergunta por ti ou pelas tuas pernas cansadas,

excepto eu, quando barafusto com Deus, 

junto às fotografias onde sorris

numa sessão de ritmos perdidos.


Sabes Pai, passei a gostar de açorda alentejana!

como não estás cá para casar os coentros com o alho e azeite…

a punho, a vida dilui-nos sem nos apercebermos.



quinta-feira, 21 de maio de 2026

A memória dos escudos






Naquele tempo o dinheiro tinha outro custo, outra face, outra personalidade. 
Lembro-me do que podia comprar com esta fortuna. Os escudos eram escassos e eram bem tratados, entre mãos que  subtraiam com mais frequência que somavam. Era fácil contar o dinheiro, porque eram poucas moedas e notas, quanto mais contos de mil reis. Hoje encontrei estas notas numa caixinha de outro tempo, com fotografias de quem já não preenche o suspiro nos bons dias. Naquele tempo a vida não era nada fácil. O pouco custava muito. 
Vendo bem as coisas, nós éramos mais do que somos agora, mais fortes, mais novos, éramos mais à mesa a fazer barulho com os talheres, talvez por isso doesse menos e rir fosse um exercício que custasse tão pouco.

domingo, 3 de maio de 2026

730 dias



730 dias pregados no céu da boca

a tua ausência é uma ferida constante,

sangue lento num viver dormente,

e de tanto te lembrar longe,

imagino-te presente.


acordo sobressaltado na ilusão

que habitas os escombros

dos meus sonhos, em acenos

irreais de tão próximos,

vives no intervalo imaterial 

das pétalas desta casa sempre tua.


e dos desamores em que caí...

por mulheres imperfeitas na sua perfeição,

não haverá abismo tamanho

que se assemelhe ao negrume 

do perder Mãe,

repetitamente, todos os dias,

em que adormeço um pouco menos vivo.







sábado, 25 de abril de 2026

A queda do Angry Bird


Cardeal-nortenho (Cardinalis cardinalis)


Esta foi uma das últimas fotografias que fiz com a minha lente favorita, antes dela cair e transformar-se numa peça quase decorativa. Por esse motivo, é uma homenagem à Nikon 300 mm PF f4. A ave não estava perto e a lente ofereceu-me detalhes suficientes para recortar a imagem até ao  formato 4/3 de um retrato. Esta teleobjetiva acompanhou-me em tantas aventuras, registando desde insectos, mamíferos, aves, fungos e algumas dores de cabeça e de crescimento. Foi uma autêntica peça colectora de memórias com um olhar afiado de boas recordações. Quanto à foto. Bem, por norma, não sou um retratista, porém houve vários factores que contribuíram para focar-me na cabeça da ave. O primeiro foi a altitude do cardeal-do-norte com a sua proeminente poupa a brilhar em cambiantes de vermelho e laranja. Aliás, não tinha mais nenhuma outra fotografia com esta pose. Outro factor, prende-se com o fato de o pássaro estar no meio de uma árvore, com um emaranhado de ramos à frente, o que não permitia contemplar  todo o seu esplendor. E por fim, quando fui ao Canadá tinha como objectivo observar o passarinho Red do jogo Angry Birds, e aqui está ele o Cardeal-nortenho (Cardinalis cardinalis), com ar de chateado, como tantas vezes aconteceu nas suas fúrias do video jogo.



Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...