quinta-feira, 5 de março de 2026
António Lobo Antunes
segunda-feira, 2 de março de 2026
Uma noite com as borbolets nocturnas do Quênia
Não foram muitas as noites em que saí para observar os insectos nocturnos do Quênia. Houve, no entanto, uma noite em que o cansaço não me chamava para a cama e decidi, antes de ir tomar banho, percorrer os caminhos do lodge. Isto porque um amigo tinha-me alertado para uma grande borboleta que estava pousada numa cabine desabitada. Eram 21:00 e os elefantes movimentavam-se do outro lado do rio, marcando o ritmo do coração de África. Os ecos dos lamentos dos leões pareciam aproximar-se como as insónias. Será que os predadores chegariam a atravessar o rio até às casas do alojamento turístico? Pouco provável. O bafo da noite colava-se à pele, tal como os insectos eram atraídos pela luz das coisas artificiais. Por entre arbustos, paredes e candeeiros, encontrei um micro mundo de antenas que sobrevivem de forma corajosa aos desafios da noite. Borboletas, moscas, mosquitos e louva-a-Deus que me guardem.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
as mais belas flores não precisam de raízes
a brisa escupia o ondular vegetal do cabelo,
olhei uma vez e parecia que um cavalo-marinho levitava,
quando olhei a segunda vez, a vaga de um sorriso
hipnótico e tangivel fez sombra ao sol.
fêmea, como as janelas abertas na madrugada,
a flor de anjo deixava cartas nas casas marítimas,
tentei chamar a sua atenção, mas...
ela continuou fiel ao seu trabalho de existir um pouco menos.
as mais belas flores não precisam de raízes,
nem os animais inventados precisam de sangue para amar.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
A praia do meu umbigo
sábado, 14 de fevereiro de 2026
e a morte?
cego, sais de dentro de um buraco, nu,
só vieste cá buscar um fato
e desta porta para dentro
não levas mais do que cinza
terra e arrependimento
no regresso vais vestido de preto
e de olhos lacrados.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
A respiração dos electrodomésticos
da voz do teu velho rádio
ainda oiço suspiros,
relatos desportivos,
golos num fim de tarde,
meu eterno Pai.
as impressões digitais no ecrã
num tátil monitor social,
tablet que te fazia sorrir,
com os netos dos outros
aqueles filhos que não te dei,
meu céu de Mãe.
hoje voltei a ligar todos os vossos aparelhos,
na esperança que as ondas da electónica estática
animassem o espelho vazio.
domingo, 28 de dezembro de 2025
De volta a 1946
Minha Mãe, ontem fazias 79 anos
hoje faz 79 anos que foste registada.
em 1946 o mundo era outro,
menos a conjugação da saudade e do amor.
Ontem fui ao cemitério mesmo sabendo que não querias.
trago a garganta atada ao somatório dos dias sem ti,
no cemitério encontrei poucos caminhantes,
pouparam-me o embaraço deste lacrimoso andar.
Mesmo assim, desejei um bom ano a duas senhoras
habituadas ao local e às lides dos mortos,
o tempo desafazia-se em gestos incompletos, cinzentos,
o sibilar das aves obrigava-me a olhar para cima, diz-se
céu!
Como todos os anos, ofereci-te duas rosas.
custa-me não ouvir: "são bonitas!"
De resto, nada de novo, dizem que o Natal já passou,
será por isso que as camisas debotaram luto e a pele sangrou
rugas?
António Lobo Antunes
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