só viemos cá buscar um fato preto
desta porta para dentro
não levas mais do que cinza
terra e arrependimento
só viemos cá buscar um fato preto
desta porta para dentro
não levas mais do que cinza
terra e arrependimento
da voz do teu velho rádio
ainda oiço suspiros
relatos desportivos
golos num fim de tarde,
meu eterno Pai.
guardo as tuas dedadas no ecrã
tátil monitor social
tablet que te fazia sorrir
com os netos que não te dei,
meu céu de Mãe.
hoje voltei a ligar todos os vossos aparelhos
na esperança que a electónica
anima-se o espelho vazio.
Minha Mãe, ontem fazias 79 anos
hoje faz 79 anos que foste registada.
em 1946 o mundo era outro,
menos a conjugação da saudade e do amor.
Ontem fui ao cemitério mesmo sabendo que não querias.
trago a garganta atada ao somatório dos dias sem ti,
no cemitério encontrei poucos caminhantes,
pouparam-me o embaraço deste lacrimoso andar.
Mesmo assim, desejei um bom ano a duas senhoras
habituadas ao local e às lides dos mortos,
o tempo desafazia-se em gestos incompletos, cinzentos,
o sibilar das aves obrigava-me a olhar para cima, diz-se
céu!
Como todos os anos, ofereci-te duas rosas.
custa-me não ouvir: "são bonitas!"
De resto, nada de novo, dizem que o Natal já passou,
será por isso que as camisas debotaram luto e a pele sangrou
rugas?
Luto filho da Mãe! Agradeço, mas não aceito
convites passar a consoada com ninguém. Durante mais de cinquenta anos celebrei
esta época pela minha Mãe, pelo meu Pai, pelo nascimento do menino Jesus. A
nossa união. Na nossa pequena casa, tão humilde quanto acolhedora. Éramos um
presépio vivo cheio de imperfeições e disfunções familiares O meu Pai era
carpinteiro e gostava das luzinhas coloridas que enfeitavam a árvore e a mesa
com filhoses e rabanadas brilhantes. Adormecia sereno a olhar para a televisão.
A minha Mãe era funcionária pública sempre atarefada na cozinha, de volta das couves
e do bacalhau, punha a mesa e arrumava o que eu desarrumava. De manhã trocávamos beijos em forma de presentes.
Hoje não estou sozinho. Para além dos periquitos e das
plantas, tenho a companhia dos espíritos que habitam todo este espaço
divisível. Este é o segundo ano que passo sem os meus pais. Fisicamente,
falando, pois sinto que me sussurram ao ouvido palavras quentes e raspanetes
protectores. Um arrepio na pele de quem nos passa a mão pela nossa falésia.
Cá em casa não há embrulhos coloridos prestes a rebentar de curiosidade. Ou melhor, recebi o melhor presente possível por parte da médica de família - saúde temporária em formato de comprimidos para a doença crónica de estar vivo. Não há presépio ou árvore de plástico com luzes irrequietas, fitas multicolores e um estrela sempre torta no topo. Tenho que reaprender a gostar desta época. Talvez para o ano frequente um curso no Christmas Institute. Acredito em Jesus. Tenho fé, mas desconfio de muitos Homens.
O menino Jesus de barro trabalhou todo o ano para se exibir belo e sem falhas na pintura, juntamento com os outros elementos do presépio, na esperança de ocuparem, em cima da mesa da sala, o topo do nosso mundo. O mundo é liderado por fazedores de guerras e eu já não tenho mesa da sala onde possa sentar amigos arrependidos. Peço desculpa às figurinhas de barro, porém não tive coragem para vos libertar do escuro desse caixote empoeirado. O mundo é um lugar cada vez mais sombrio e em rota de colisão com o umbigo dos senhores da guerra. Contudo, tenho fé no brilho da manhã. Beijo um crucifixo que trago ao pescoço e procuro um suspiro em forma de parágrafo de esperança.
Ainda bem que estou a trabalhar no dia de Natal. Já vos tinha dito que trabalho por turnos. Não é mau de todo. Evito algumas estirpes de virus disfarçados de humanos. Em casa também fico doente mas isso é outra queda.
Com o computador na mão percorro uma avenida deserta dentro do meu casulo. Busco um local com luz natural. A janela grande da sala será o meu escritório, o meu espaço aberto para o mundo. Não oiço o barulho enervante dos vizinhos do andar de cima. Foram para a terra. Lá fora, procuro pessoas para inventar histórias piores que as minhas. Não vejo ninguém a passear o cão e entretenho-me com os pássaros que voam no jardim. Os melros continuam a não saber o que é o Natal e não é por isso que não são felizes no seu luto.
Depois do dia de Reis, a minha Mãe embrulhava em papel
de jornal os bonecos do presépio, a árvore de Natal, e colocava
tudo dentro de um caixote de cartão na despensa. Até para o ano "natalinos"! A caixote nunca mais foi aberto. Sempre que olho para ele crescem-me os braços e o chão torna-se instável e madrugador.
E se as agulhas ganhassem vida...
agora o dedal procura o seu confessor,
a cabeça do alfinete arde de
saudade,
por lábios molhados que a segurem.
as baínhas das calças sem pernas
de andor
os novelos desfiados enrolados
em gatos tesoura,
imaginários, como a cor de uma
sombra perdida,
"uns pontinhos no pijama velho -
e dura mais um ano!"
aquele elástico-memória sempre
branco demais
os botões casamenteiros das
camisas que procuram casa,
dentro da caixa de sonhos por
reparar,
anseiam pela mão de costureira
íngreme até ao fim.
No regaço da lagoa existe um ilhéu
com o agitar da ladainha ao vento suão
voam aves pela memória do céu
amansando águas num arrepio de mão
Pela força do arroz crescem novenas
e quando à lagoa chega o barqueiro
as moças destas terras morenas
voam pelas dunas num feitiço matreiro
Na vida tudo passa nada fica
pela lagoa tudo voa e edifica
como se fosse este amor o primeiro.
Naquele tempo onde pouco era suficiente
fomos ao oftalmologista, eu não percebia,
quando chegámos a casa, sentado no sofá,
tapavas-me a vista direita e eu não entendia.
Porque me pedias para contar
quantos dedos a tua mão acenava de lonjura?
uma massa disforme baloiçava no nevoeiro vivo,
num vislumbre sombrio, eu não percebia....
Porque choravas perante a minha cegueira,
se me bastava o tacto do olho direito
para te sentir tão inteiramente bonita,
Sempre foste Mãe!
só viemos cá buscar um fato preto desta porta para dentro não levas mais do que cinza terra e arrependimento