quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes



Na sua boca as palavras tinham outro sabor. As pausas, os silêncios, conferiam um significado às sombras que deslizavam nas conversas. Dava poucas entrevistas, porém quando falava ficava quase sempre algo no ar. Como os ecos de uma explosão ou as ondas de choque de um tremor. Lembro-me da sua imagem distante, mas não fria, sentado, abrigado do calor por um chapéu de sol, numa feira do livro qualquer. O mar nos seus olhos e o contorno da curva das palavras escolhidas como se fossem gotas de sangue, o intervalo entre sílabas era colmatado pela dança de um cigarro entre dedos. Uma longa fila de leitores esperava pela oportunidade de uma assinatura e de uma breve conversa. Eu era mais um entre muitos. Em 1997, a feira do livro deu-me a conhecer o homem que tinha inventado uma nova escrita. E foi com enorme prazer que falámos das coisas que desanimavam o breve mundo das circunstâncias. Voltei a encontrar-me com ele em 2001 e disse-lhe que gostava muito dos seus livros. Deve ser a pior coisa que se possa dizer a um homem destes, pensei, mas não me ocorreu nada de muito inteligente para alvitrar. Ele não se importou e falou-me da filha. Eu senti-me nu no meio de um deserto. O seu sorriso calmo suavizou a minha vergonha circunstancial. Depois, pediu a alguém para lhe ligar à filha. Aquele homem de opiniões fortes e silêncios poderosos possuía guerras dentro de si, tal como, sabia como as adiar. As batalhas nunca terminam, adiam-se para outro calendário. O médico que ouviu e retratou os estilhaços da guerra de ultramar, tornou-se num escritor único na literatura mundial. Lembro-me de o ouvir dizer que os maiores escritores não ganharam nenhum prémio Nobel, que cada parágrafo era muito precioso e que cada livro seu não passava de um xixi no oceano. Por aqui termino, com a esperança que António Lobo Antunes continue a reescrever a consciência humana numa outra mesa flutuante.








segunda-feira, 2 de março de 2026

Uma noite com as borbolets nocturnas do Quênia

 

Não foram muitas as noites em que saí para observar os insectos nocturnos do Quênia. Houve, no entanto, uma noite em que o cansaço não me chamava para a cama e decidi, antes de ir tomar banho, percorrer os caminhos do lodge. Isto porque um amigo tinha-me alertado para uma grande borboleta que estava pousada numa cabine desabitada. Eram 21:00 e os elefantes movimentavam-se do outro lado do rio, marcando o ritmo do coração de África. Os ecos dos lamentos dos leões pareciam aproximar-se como as insónias. Será que os predadores chegariam a atravessar o rio até às casas do alojamento turístico? Pouco provável. O bafo da noite colava-se à pele, tal como os insectos eram atraídos pela luz das coisas artificiais. Por entre arbustos, paredes e candeeiros, encontrei um micro mundo de antenas que sobrevivem de forma corajosa aos desafios da noite. Borboletas, moscas, mosquitos e louva-a-Deus que me guardem. 

























domingo, 22 de fevereiro de 2026

as mais belas flores não precisam de raízes

 



a brisa escupia o ondular vegetal do cabelo,

olhei uma vez e parecia que um cavalo-marinho levitava,

quando olhei a segunda vez, a vaga de um sorriso

hipnótico e tangivel fez sombra ao sol.


fêmea, como as janelas abertas na madrugada,

a flor de anjo deixava cartas nas casas marítimas,

tentei chamar a sua atenção, mas...

ela continuou fiel ao seu trabalho de existir um pouco menos.


as mais belas flores não precisam de raízes,

nem os animais inventados precisam de sangue para amar.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A praia do meu umbigo



na praia do meu umbigo,
os navios longínquos eram miniaturas,
brinquedos quebrados de tanto fazer de conta, 
nas horas em que não molhavamos os pés.

creio que as ondas de vidro sempre existiram,
agarradas às algas e às impiedosas rochas verdes,
a espuma da maré fez parte do cenário de sempre, 
preso ao areal do teu cabelo e à salmoura do olhar.

em loop constante,
o tempo esculpiu os ossos desta praia, 
calcorreada pelos dinossauros 
porta-chaves a um Deus descalço.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

e a morte?

 


cego, sais de dentro de um buraco, nu,

só vieste cá buscar um fato

e desta porta para dentro 

não levas mais do que cinza 

terra e arrependimento

no regresso vais vestido de preto

e de olhos lacrados.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A respiração dos electrodomésticos

 


da voz do teu velho rádio 

ainda oiço suspiros, 

relatos desportivos,

golos num fim de tarde, 

meu eterno Pai.

 

as impressões digitais no ecrã 

num tátil monitor social,

tablet que te fazia sorrir,

com os netos dos outros

aqueles filhos que não te dei,

meu céu de Mãe.

 

hoje voltei a ligar todos os vossos aparelhos,

na esperança que as ondas da electónica estática 

animassem o espelho vazio.


domingo, 28 de dezembro de 2025

De volta a 1946

 

Minha Mãe, ontem fazias 79 anos

hoje faz 79 anos que foste registada.

em 1946 o mundo era outro,

menos a conjugação da saudade e do amor.

 

Ontem fui ao cemitério mesmo sabendo que não querias.

trago a garganta atada ao somatório dos dias sem ti,

no cemitério encontrei poucos caminhantes,

pouparam-me o embaraço deste lacrimoso andar.

 

Mesmo assim, desejei um bom ano a duas senhoras

habituadas ao local e às lides dos mortos,

o tempo desafazia-se em gestos incompletos, cinzentos,

o sibilar das aves obrigava-me a olhar para cima, diz-se céu!

 

Como todos os anos, ofereci-te duas rosas.

custa-me não ouvir: "são bonitas!"

De resto, nada de novo, dizem que o Natal já passou,

será por isso que as camisas debotaram luto e a pele sangrou rugas?



António Lobo Antunes

Na sua boca as palavras tinham outro sabor. As pausas, os silêncios, conferiam um significado às sombras que deslizavam nas conversas. Dava ...