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sábado, 8 de agosto de 2026

Temos Gatos a comandar a nato

 





Ao fundo do quintal o "Ti Manel" observava as videiras

protegidas por redes ante a ameaça dos pardais carteiros,

ouve o  grito do portão e o embate dos figos maduros na terra seca,

atento a quem chega antes do rasgo das uvas de setembro.

 

“Nina”, a gata amarela, é a sua companhia,

vadia minguante, como a lua a ensinou a ser,

dorme noutros alpendres e não aos seus pés,

o "Ti Manel" fala-me da dor ao cursar madrugadas.

 

somos parecidos na forma como confiamos nos felinos

admiramos as suas vibrissas, com a capacidade de interceptar dimensões

e estabelecer comunicação entre a solidão e os espectros vigilantes;

mas só a “Nina” e o “Ti Manel” colhem uvas nas figueiras siderais.

 

ao sair do quintal, não fiz barulho quase nenhum ao fechar o portão,

enquanto a "Nina" e o "Ti Manel" corrigiam a órbita deste satélite.




quarta-feira, 24 de junho de 2026

Insatisfeito


Falta-me não sei quê para ter não sei quanto

não sei como ou quando posso estar completo  

tenho tanto que não me chega o intento  

não me falta sustento em campo aberto


Tenho relógio com casas dentro

Labor em dia, carro de bois e jumento 

joias em cacos, fome de cama


Não me falta solar nem flama de astro ausente

quando ela vier, a tal ceiferia que a ninguém falha,

talvez aí fique satisfeito, mortinho de contente. 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

90 anos

 

Nas margens da distração tudo me caí das mãos

ferramentas de carpinteiro, livros, maças, olhos de peixe 

Oiço-te dizer “vai com jeitinho” quando não tenho engenho

com o óleo dos motores, nem feição para as curvas da vida.


Os teus pinheiros crescem à tua procura,

os cafés continuam a acumular pó de sonambulismo

os vizinhos envelhecem mais rápido que o prédio

enquanto a casa espera-te para adormecer de vez.


Já ninguém pergunta por ti ou pelas tuas pernas cansadas,

excepto eu, quando barafusto com Deus, 

junto às fotografias onde sorris

numa sessão de ritmos perdidos.


Sabes Pai, passei a gostar de açorda alentejana!

como não estás cá para casar coentros com o alho e azeite…

a punho, a vida dilui-nos sem nos apercebermos.



quinta-feira, 21 de maio de 2026

A memória dos escudos






Naquele tempo o dinheiro tinha outro custo, outra face, outra personalidade. 
Lembro-me do que podia comprar com esta fortuna. Os escudos eram escassos e eram bem tratados, entre mãos que  subtraiam com mais frequência que somavam. Era fácil contar o dinheiro, porque eram poucas moedas e notas, quanto mais contos de mil reis. Hoje encontrei estas notas numa caixinha de outro tempo, com fotografias de quem já não preenche o suspiro nos bons dias. Naquele tempo a vida não era nada fácil. O pouco custava muito. 
Vendo bem as coisas, nós éramos mais do que somos agora, mais fortes, mais novos, éramos mais à mesa a fazer barulho com os talheres, talvez por isso doesse menos e rir fosse um exercício que custasse tão pouco.

domingo, 3 de maio de 2026

730 dias



730 dias pregados no céu da boca

a tua ausência é uma ferida constante,

sangue lento num viver dormente,

e de tanto te lembrar longe,

imagino-te presente.


acordo sobressaltado na ilusão

que habitas os escombros

dos meus sonhos, em acenos

irreais de tão próximos,

vives no intervalo imaterial 

das pétalas desta casa sempre tua.


e dos desamores em que caí...

por mulheres imperfeitas na sua perfeição,

não haverá abismo tamanho

que se assemelhe ao negrume 

do perder Mãe,

repetitamente, todos os dias,

em que adormeço um pouco menos vivo.







quinta-feira, 26 de março de 2026

A lição de Sofia

 

Sofia grita fúrias e abraços sonoros

Está contente por ser desafiada

Pelos exercícios de caminhada

Na roleta física da fisioterapia


Sofia de olhos primaveris e cabelo de andorinha

Tem um sorriso incompreensivelmente contagiante    

Não deixa que o silêncio se confesse ao suor

E rasga decibéis à saúde de quem a ampara


Sofia não articula uma palavra completa

Coxeia ao andar e arrasta o tempo com os pés

Um acidente vascular cerebral esquémico

Roubou-lhe caminho e a esgrima vocal  


Sofia ri e vive nas histórias dos outros

Ensina-me que há coragem nas arestas das pedras 

A simplicidade com que grita bem alto “oh pá!”

Faz-me acreditar que há um motivo para tudo isto.



domingo, 22 de fevereiro de 2026

as mais belas flores não precisam de raízes

 



a brisa escupia o ondular vegetal do cabelo,

olhei uma vez e parecia que um cavalo-marinho levitava,

quando olhei a segunda vez, a vaga de um sorriso

hipnótico e tangivel fez sombra ao sol.


fêmea, como as janelas abertas na madrugada,

a flor de anjo deixava cartas nas casas marítimas,

tentei chamar a sua atenção, mas...

ela continuou fiel ao seu trabalho de existir um pouco menos.


as mais belas flores não precisam de raízes,

nem os animais inventados precisam de sangue para amar.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A praia do meu umbigo



na praia do meu umbigo,
os navios longínquos eram miniaturas,
brinquedos quebrados de tanto fazer de conta, 
nas horas em que não molhavamos os pés.

creio que as ondas de vidro sempre existiram,
agarradas às algas e às impiedosas rochas verdes,
a espuma da maré fez parte do cenário de sempre, 
preso ao areal do teu cabelo e à salmoura do olhar.

em loop constante,
o tempo esculpiu os ossos desta praia, 
calcorreada pelos dinossauros 
porta-chaves a um Deus descalço.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

e a morte?

 


cego, sais de dentro de um buraco, nu,

só vieste cá buscar um fato

e desta porta para dentro 

não levas mais do que cinza 

terra e arrependimento

no regresso vais vestido de preto

e de olhos lacrados.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A respiração dos electrodomésticos

 


da voz do teu velho rádio 

ainda oiço suspiros, 

relatos desportivos,

golos num fim de tarde, 

meu eterno Pai.

 

as impressões digitais no ecrã 

num tátil monitor social,

tablet que te fazia sorrir,

com os netos dos outros

aqueles filhos que não te dei,

meu céu de Mãe.

 

hoje voltei a ligar todos os vossos aparelhos,

na esperança que as ondas da electónica estática 

animassem o espelho vazio.


domingo, 28 de dezembro de 2025

De volta a 1946

 

Minha Mãe, ontem fazias 79 anos

hoje faz 79 anos que foste registada.

em 1946 o mundo era outro,

menos a conjugação da saudade e do amor.

 

Ontem fui ao cemitério mesmo sabendo que não querias.

trago a garganta atada ao somatório dos dias sem ti,

no cemitério encontrei poucos caminhantes,

pouparam-me o embaraço deste lacrimoso andar.

 

Mesmo assim, desejei um bom ano a duas senhoras

habituadas ao local e às lides dos mortos,

o tempo desafazia-se em gestos incompletos, cinzentos,

o sibilar das aves obrigava-me a olhar para cima, diz-se céu!

 

Como todos os anos, ofereci-te duas rosas.

custa-me não ouvir: "são bonitas!"

De resto, nada de novo, dizem que o Natal já passou,

será por isso que as camisas debotaram luto e a pele sangrou rugas?



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O Natal também é para orfãos

 

Luto filho da Mãe! Agradeço, mas não aceito convites passar a consoada com ninguém. Durante mais de cinquenta anos celebrei esta época pela minha Mãe, pelo meu Pai, pelo nascimento do menino Jesus. A nossa união. Na nossa pequena casa, tão humilde quanto acolhedora. Éramos um presépio vivo cheio de imperfeições e disfunções familiares O meu Pai era carpinteiro e gostava das luzinhas coloridas que enfeitavam a árvore e a mesa com filhoses e rabanadas brilhantes. Adormecia sereno a olhar para a televisão. A minha Mãe era funcionária pública sempre atarefada na cozinha, de volta das couves e do bacalhau, punha a mesa e arrumava o que eu desarrumava. De manhã trocávamos beijos em forma de presentes. O tempo não volta a ter o mesmo sabor.

Hoje não estou sozinho. Para além dos periquitos e das plantas, tenho a companhia dos espíritos que habitam todo este espaço divisível.  Este é o segundo ano que passo sem os meus pais. Fisicamente, falando, pois sinto que me sussurram ao ouvido palavras quentes e raspanetes protectores. Um arrepio na pele de quem nos passa a mão pela nossa falésia.

Cá em casa não há embrulhos coloridos prestes a rebentar de curiosidade. Ou melhor, recebi o melhor presente possível por parte da médica de família - saúde temporária em formato de comprimidos para a doença crónica de estar vivo. Não há presépio ou árvore de plástico com luzes irrequietas, fitas multicolores e um estrela sempre torta no topo. Tenho que reaprender a gostar desta época. Talvez para o ano frequente um curso no Christmas Institute. Acredito em Jesus.  Tenho fé, mas desconfio de muitos Homens.

O menino Jesus de barro trabalhou todo o ano para se exibir belo e sem falhas na pintura, juntamento com os outros elementos do presépio, na esperança de ocuparem, em cima da mesa da sala, o topo do nosso mundo. O mundo é liderado por fazedores de guerras e eu já não tenho mesa da sala onde possa sentar amigos arrependidos. Peço desculpa às figurinhas de barro, porém não tive coragem para vos libertar do escuro desse caixote empoeirado. O mundo é um lugar cada vez mais sombrio e em rota de colisão com o umbigo dos senhores da guerra. Contudo, tenho fé no brilho da manhã. Beijo um crucifixo que trago ao pescoço e procuro um suspiro em forma de parágrafo de esperança.

Ainda bem que estou a trabalhar no dia de Natal. Já vos tinha dito que trabalho por turnos. Não é mau de todo. Evito algumas estirpes de virus disfarçados de humanos. Em casa também fico doente mas isso é outra queda.

Com o computador na mão percorro uma avenida deserta dentro do meu casulo. Busco um local com luz natural. A janela grande da sala será o meu escritório, o meu espaço aberto para o mundo. Não oiço o barulho enervante dos vizinhos do andar de cima. Foram para a terra. Lá fora, procuro pessoas para inventar histórias piores que as minhas. Não vejo ninguém a passear o cão e entretenho-me com os pássaros que voam no jardim. Os melros continuam a não saber o que é o Natal e não é por isso que não são felizes no seu luto. 

Depois do dia de Reis, a minha Mãe embrulhava em papel de jornal os bonecos do presépio, a árvore de Natal, e colocava tudo dentro de um caixote de cartão na despensa. Até para o ano "natalinos"! A caixote nunca mais foi aberto. Sempre que olho para ele crescem-me os braços e o chão torna-se instável e madrugador. 


A mão da costureira

 


E se as agulhas ganhassem vida...

agora o dedal procura o seu confessor,

a cabeça do alfinete arde de saudade,

por lábios molhados que a segurem.

 

as baínhas das calças sem pernas de andor

os novelos desfiados enrolados em gatos tesoura,

imaginários, como a cor de uma sombra perdida,

"uns pontinhos no pijama velho - e dura mais um ano!"

 

aquele elástico-memória sempre branco demais

os botões casamenteiros das camisas que procuram casa,

dentro da caixa de sonhos por reparar,

anseiam pela mão de costureira íngreme até ao fim.



quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Lagoa de Melides



No regaço da lagoa existe um ilhéu

com o agitar da ladainha ao vento suão

voam aves pela memória do céu

amansando águas num arrepio de mão


Pela força do arroz crescem novenas

e quando à lagoa chega o barqueiro

as moças destas terras morenas

voam pelas dunas num feitiço matreiro

 

Na vida tudo passa nada fica 

pela lagoa tudo voa e edifica

como se fosse este amor o primeiro.






terça-feira, 11 de novembro de 2025

Oftalmologista

 

Naquele tempo onde pouco era suficiente

fomos ao oftalmologista, eu não percebia,

quando chegámos a casa, sentado no sofá,

tapavas-me a vista direita e eu não entendia.


Porque me pedias para contar

quantos dedos a tua mão acenava de lonjura?

uma massa disforme baloiçava no nevoeiro vivo,

num vislumbre sombrio, eu não percebia....


Porque choravas perante a minha cegueira,

se me bastava o tacto do olho direito

para te sentir tão inteiramente bonita,

Sempre foste Mãe!

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O caminho desobediente

 


Camisa preta em cima da cama,

calças escuras engomadas,

corpo lavado em água tépida,

e barba escanhoada.


as roupas ajustam-se à pele,

os músculos procuram sustento,

na luz que faz as borboletas voar, 

de gesto perfumado, quase me apetece rir!


saiu de casa com encontro marcado

compro um ramo de rosas vermelhas,

o carro conduz-se pelos soluços da velocidade;

chego ao local combinado: está sol, o ar é negro.


sei que não me querias a caminho do cemitério,

mas que remédio tenho eu senão desobedecer? 

estou aqui, quase transparente, de boca seca,

falo contigo neste domingo de desencontrados. 





sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Vamos para casa filho!

 

No regresso aos corredores azuis 

do hospital de onde tu partiste, 

em cada rosto procurava o teu,

em cada senha a tua idade branca.

 

o teu nome esculpido na massa silenciosa do luto

nas portas, macas, lençóis queimados,

dos pisos etéreos aos elevadores vazios,

sinto-te em cada suspiro das paredes.

 

enquanto espero que a minha vez chegue...

oiço os gritos em frases interrompidas

estropiados com olhares afundados

nas cadeiras de plástico, onde se derretem queixumes.

 

espero ver-te chegar e dizer: "Vamos para casa filho!"

sem saber o que fazer com os pés que não param quietos,

dou por mim a flutuar dentro de uma lágrima.

 



terça-feira, 7 de outubro de 2025

Deixou de ser sonho

Um sonho deixou de ser sonho

e nasce feito mas com tanto por fazer.

com todas as perfeitas imperfeições,

daquilo que se faz e desfaz

por bem querer.


nunca completo, há sempre

casas com vento dentro,

janelas de mar por amansar.

e sangue em terra por cicatrizar.


que seja por alento que nunca me deito

com este corpo enxuto e amarrotado,

em pulso morto por desenquietar. 



sábado, 20 de setembro de 2025

Labuta



Sais para o trabalho com o objectivo de colocar pão na mesa, pagar contas, aconchegar as horas no peito como um ninho. Na natureza a história é a mesma. Há que trazer alimento a quem espera pelo regresso do progenitor com uma acendalha no olhar. Esta poupa levou minhocas vezes sem conta para os juvenis, enquanto, a poucos metros dali, os homens acartavam sacos de esperança para casa.

No entanto, outros homens batiam com a cabeça contra o muro, esquecendo-se do trilho de regresso, deixando cair pacotes de leite, fruta e quilos de cegueira contagiosa.



quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Amanhã

 




no ciclo das luas 

deixei passar os dias,

ainda há pouco ouvi-te dizer

que não conseguias dormir,

as dores laminares puxavam-te as pernas,

para um poço negro sem escada de céu.


com tristeza na voz 

e memória rouca,

falámos das proezas

dos médicos

dos anjos

dos amores

e tu dizas: "liga-me quando quiseres!"


"amanhã ligo"

dizia eu para as minhas unhas sujas

pelas crostas arrancadas ao cicatrizar,

adiava o telefonema para falar da fé, da ciência

dos remédios milagrosos por inventar.


partiste ontem.

combateste uma muralha quase intransponível, 

foste vitoriosa, imprevisível e corajosa.

como o vazio que floresce amanhã.



Para a minha Tia Edite.




Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...