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quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Um lar que nunca é o nosso

 




Sempre julguei ser capaz de defender-te

de palavras como lar, casa de repouso,

residence sénior, nome pomposo,

por outro sítio, além do nosso cantinho.


por mais que tente ser ferro também me vergo

a uma solidão pintada nos olhos das paredes, 

uma fralda suja à espera da dignidade nocturna,

ou uma colher que tem que ser guiada até à boca.


a tua força guerreira é um novo planeta

que orbita o meu olhar das seis da tarde,

a memória salta como a agulha de um disco vinil,

repete em lenta rotação: a nossa casinha!


pedes-me para te levar nas falhas dos meus dedos,

ah que noite sem beijo, estamos tão perto da modéstia, 

que o nosso pequeno ninho…

só existe quando nele caímos. 




quarta-feira, 22 de março de 2023

Domingo magro

 




um homem cai num jardim cheio de domingo,

ninguém repara, a felicidade estoura balões,

as crianças riem, os pais seguram o sol, 

cicatrizando medos na pele familiar.

 

o homem levanta-se com a dignidade solitária

de quem não se importa com as calças mictadas

ou com a fome que lhe seca a casca do corpo,

sorri, procura a sombra entre pinheiros. 

 

o domingo está prestes a findar, 

as crianças desaparecem com os progenitores 

engolidos nas filas de carros que falam sozinhos,

familias recolhem exaustas às colmeias.

 

o homem de calças com manchas de urina

e camisa com nódoas de sangue ou vinho,

não deixa o domingo eclipsar-se nem o jardim fechar,

sem antes esquecer-se de um qualquer poema;

 

numa noite a fazer-se de abrigo.


quarta-feira, 5 de maio de 2021

2 segundos




neste quarto de dois passos tudo se agiganta,

tenho dias em que a cama me  engole,

em que a janela de vidro sujo pelas sacrifício da espera

projecta radiografias da minha imobilidade tentacular,

sou a desarrumação disforme e impessoal

que observa o evaporar da água deste copo espelho

não me incomoda a barba desgrenhada de arame velho,

nem estas olheiras de quem se endrominou em comprimidos,

nem a desarrumação dos livros empoeirados sem fala,

ou guitarra deitada na cama sem cordas  - quase mulher,

muito menos, não desgosto desta farda de pijama,

manchada pelo ócio e pela hipnótica alegria, se bem me lembro...

ontem, sim foi ontem, ver-te sorrir!

por 2 segundos, estavas à janela da cozinha a ver quem vive.

hoje quase tudo me parece inútil de tão promissora aragem.




Para a minha querida Mãe!


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Poema talvez não tanto. No passado dia 5 de Maio arranjei uma maneira para comemorar  o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa! 

rabo-de-fogo

abriam-se janelas de nuvens pardas,
ao céu envidraçado deste confinamento,
no parapeito manchado de espera,   
seguia aquele adejar de contentamento. 

um rabo-de-fogo emplumado             
feito pássaro negro-cinza dos infernos,
bicho de tiques modernos,
irrequieto e de fogo de pena arruivada,
brincava de poiso em poiso
em cabriolas de cauda empinada.

de cantar estranho quase alienígena,
como quem desfaz esferovite com a mão
alegrava deste a primeira à última manhã,
este pequeno quarto de cabeça coração.

o bicho queria lá saber do outro bicho pandémico
o que ele almejava era papo cheio, pouso altaneiro
e brio na asa;
enquanto eu contava entre a cova dos dedos,
as árvores que me faltavam abraçar.

ele esfarelava, esfarelava a esperança, 
urgentemente nervosa do desconfinar.




05|05|2020





Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...