No regresso de mais uma caminhada passei pela Quinta da Lagoa em Carcavelos, onde observei um corvo marinho (Phalacrocorax carbo) a sobrevoar o lago para depois poisar em cima de uma pedra. Já tinha fotografado muitos corvos-marinhos em vários locais, mas nunca nenhum em Carcavelos. Tentei a minha sorte, lentamente aproximei-me da ave que estava entretida a secar as penas. Quando me preparava para registar o momento, ouvi um comprometido risinho a escassos metros de mim. Sob a protecção de um quiosque encerrado estava um jovem casal de namorados entusiasmados numa cega troca de beijos e carícias e eu com uma máquina fotográfica na mão, qual paparazzi... Bem, eu não queria interromper nada, ainda pensei sair dali e escolher uma outra abordagem da ave. Eles olharam para mim e para a máquina com desdém e indiferença de quem tinha mais que fazer, para depois, de mãos e pernas entrelaçadas, trocaram de línguas num osculo apaixonado. Eu estava literalmente no meio do corvo cupido e dos ardentes apaixonados, todavia não me senti intimidado pelo momento de cumplicidade alheia, e fotografei o que realmente me levou ali. A luz não era a melhor, porém o corvo foi um excelente modelo permitindo alguns ângulos curiosos. A vegetação desfocada em primeiro plano conferiu um curioso contraponto com o amarelo do bico e as matizes negras das penas. Quanto ao casal, suponho que continuassem enamorados como até então. Estava a sair do jardim, não fosse o chuva e o vendaval que se animou de repente, e ainda era levado a pensar que a primavera já tinha feito das suas.
Foi um bom regresso a este local. Tal como tinha escrito no ano passado, vale a pena redescobrir a biodiversidade do nossos jardins e ouvir as histórias com ou sem asas molhadas que têm para contar.
Em Setembro do ano passado viajei até Andorra com intuito de visitar os Pirenéus. O que retenho da viagem são imagens sonoras com histórias dentro que agora partilho.
A cordilheira dos Pirenéus serve de fronteira natural entre França e a Península Ibérica. No sopé da rocha surge Andorra; um principado voador e um pequeno grande país repleto de ambição e sentido nacional de pretensa. De Andorra guardo a memória das terras altas e das povoações invictas, inserida num vale claro de vistas amplas e desocupadas.
De quando em vez, na cidade de Andorra ouvia-se o linguajar luso, aqui e ali uma palavra em português, o que ajudava a desarmar um sorriso. As pessoas são particularmente simpáticas e comunicativas. As ruas cosmopolitas são autênticos centros comerciais. Tudo limpo, tudo arrumado, como se habitássemos uma gigante construção de lego, onde pontificam linhas estilizadas em busca da perfeita harmonia. À espreita de negócio, os olhares atentos dos vendedores das casas de electrodomésticos, regateavam esperanças a um preço quase, quase aceitável... O poder de compra é bem diferente do nosso (pelo menos do meu). A ausência de impostos traduz-se em preços mais acessíveis para uma carteira remediada. Por exemplo, o preço do gasóleo é astronomicamente mais barato. No frémito de uma cidade que vive do turismo e das estâncias de esqui desfilavam pelas avenidas mulheres bonitas com rostos felinos em dias de sol frio.
A vista para os apartamentos onde pernoitei.
Sempre a subir.
Pelas alturas, no rebordo de um selo imaginário, percorri as estradas que me levavam até aos Pirenéus.
Galguei a montanha até sentir os ouvidos a estalar, ladeado por monumentos naturais em harmonia estética com a serrilha de um sonho. Na perfeição da natureza e no pormenor, nada foi deixado ao acaso. Até a composição floral dos canteiros que enfeitavam as casas era tida em conta. As flores pareciam plantadas em número par a condizer com o número de flores dos canteiros vizinhos.
Enquanto subíamos os Pirenéus por estradas bem estimadas encontrámos povoações onde a esquadria e harmonia arquitectónica era extremamente cuidada, desde igrejas, restaurantes casas e ruas, sem lixo visível, onde nada era deixado ao acaso.
Uma tentativa (falhada) para fotografar cascatas, não tivesse deixado o tripé no carro...
A paisagem montanhosa era uma pintura viva, um quadro bucólico em constante mutação, um inacabado poema visual intransponível por palavras.
Calcorreei veredas íngremes que atravessavam bosques salpicados de cores vivas. De quando em vez, irrompiam do topo das árvores piares de misteriosa melodia para depois desaparecerem num incógnito esvoaçar de sombras. Por entre a enorme mancha verde eram frequentes os riachos e seus derivados. As fontes de água fria e os ecos das cascatas anunciavam o aparecimento de seres encantados que infelizmente não se concretizam em surpresa. Sentir a biodiversidade rica e única destes locais foi um privilégio que humildemente agradeço.
Subindo acima dos 2000 metros de altitude encontrarmos um casal de marmotas-alpinas (Marmota marmota) que emitiam um chamamento semelhante a um corvídeo.
Vários cruza-bicos (Loxia curvirostra) pousaram no topo de um pinheiro próximo de nós, certificando-se da nossas reais intenções.
Tal como esta pequena rã que teimava atravessar-se por entre passos inseguros.
Ainda acendi a lâmpada de vapor de mercúrio para ver que borboletas nocturnas eram atraídas pela luz a estas latitudes mas sem resultados significativos. Curiosamente foi numa incursão pela montanha que surgiram os exemplares mais curiosos.
Lysandra bellargus
Zygaena (transalpina) hippocrepidis
Agrius convolvuli
Percorridos os caminhos montanhosos dos Pirenéus, fomos tentar a nossa sorte num abrigo para fotografar aves necrofagas em Solsona. Sei que pode parecer estranho, contudo foram utilizados coelhos brancos (clinicamente tratados para o efeito) que serviram para atrair as aves necrofagas.
A carnificina começou segundos após a debandada do nosso guia E nós ficámos escondidos no abrigo com o dedo impacientemente pousado no máquina, à espera. As primeiras aves a descer foram os grifos com a chegada de um juvenil que ficou de vigia assistindo à descida sónica dos grifos mais velhos. O festim foi iniciado e os grifos atafulharam-se nos coelhos enquanto o grifo juvenil teve que respeitar a hierarquia e só depois dos outros se banquetearem teve direito a petiscar.
Num abrigo, um homem tem que estar atento e preparado para tudo. Há momentos irrepetíveis e que esfumam ao mínimo sinal de hesitação. Eu vi o quebra-ossos ao longe e pensei que ele fosse poisar. Porém a ave rondou, sobrevoou o local, e sem satisfazer a minha convinção, não aterrou. Para ajudar à festa, quando tentei fotografar o bicho em voo, a objectiva ficou presa na rede. O resultado é um esboço desfocado. um esquizo fraquinho da imponência desta ave necrofaga, extinta no nosso país desde o tempo de D. Carlos mas observável por estas terras espanholas. Quanto à fotografia... fica para a próxima.
Foram 12 horas dentro de um abrigo de madeira, podemos dizer que a prova de resistência foi superada. Valeu-nos as gargalhadas, a água e a bexiga apertada para enfrentar a espera e amplitude térmica.
Os ânimos ficaram mais exaltados na disputa pelo coelho branco.
Eis o que acontece quando um grifo tenta subir para cima do abrigo. O abrigo serve de poleiro.
Coube ao corvo exibir o troféu - a cabeça do coelho, um momento algo tétrico em homenagem a Edgar Allan Poe.
Corvo (Corvus corax)
Um jogo de diferença entre corvos e gralhas
Gralha-preta (Corvus corone)
De papo cheio as aves começaram a debandar, foi o que aconteceu a este corvídeo que zelosamente levava no bico um quinhão de carne para o jantar.
Há coisas que têm mais piada em filme...
Depois de tantas horas de viagem, por estradas de sol a pique, sem pregar olho, o coração continuava suspenso entre um grito adrenalina e a descoberta de novas geografias. Foi uma excelente viagem pelos encantos naturais dos Pirenéus. Sem dúvida. Um dia quero voltar e desta vez no inverno, para poder aquecer as mãos no frio do contentamento.
uma vez sangrada a incisão no alto das costas
removeram-me da carne raízes brancas,
longas e viscosas ramificações maiores do que eu,
responsáveis pelo peso invisível que acarto aos ombros.
perguntaram-me o que fazer com as raízes serpenteantes:
enquanto elas sedutoramente se enrolavam
numa amalgama de vidas entrelaçadas,
escolhas consequentes dos meus erros e das minhas penas.
ao silêncio aguçado da agulha seguiu-se
o ranger dos dente, pela lasca em carne viva,
falha aberta na pele dobrada sem anestesia
e a linha coseu o lanho numa rigorosa bainha.
o conteúdo secreto da embalagem estava selado,
foi agora expedido para o destinatário combinado,
tal e qual como será amanhã e depois,
um novo ciclo após a extracção do último ponto.
O que mais
certo temos é a morte. A miragem da vida eterna sempre foi
terrivelmente tentadora, sendo sem dúvida, um dos maiores desejos da
humanidade. No livro Zero K de Don Delillo, omodus operandi para
a eternidade passa por congelar o corpo e conservá-lo durante anos,
até que haja disponibilidade tecnológica para reanimar as células e reagrupar os
tecidos, numa nova época capaz deste e de outros feitos.
Pois... será
isto um repasto de ficção cientifica ou realidade daqui a umas
décadas? Seja como for temos que esperar para ver. Até lá tentamos
dialogar (algumas vezes), de consciência plena, e escolher entre morrer de
forma assistida, ou acabar pura e
simplesmente, do modo dito natural, arrumar as botas e esticar o pernil
(desculpem a ligeireza da linguagem). Porém, num futuro próximo, talvez seja possível viver para sempre. Com a
humanidade mais fresca de pensamento, mais ou menos interesseira e de meios mais apurados, onde a morte pode a ser negociada, adiada ou
planeada para outra época. Temos ainda, o lado idílico: a perspectiva mais
pura de vivermos ao lado daqueles que mais amamos, eternamente próximos, sem
nos preocuparmos com o fim do filme e com o apagar das luzes.
Os homens e as mulheres que habitam este livro falam da morte que espreita ao virar da esquina. Perdem-se por corredores frios e desolados de uma infraestrutura futurista, entre sombras nostálgicas e corpos em contagem decrescente. Ross é um senhor com muito dinheiro para manobrar a morte em ambiente controlado e com isso perpetuar a vida da sua amada esposa - Artis. Por outro lado, o seu filho Jeff, é confrontado com as motivações que levaram o pai a conduzir a madrasta até a antecâmara da morte. Jeff vê-se no meio de um turbilhão de emoções que o levam a recordar a sua mãe e outros momentos de perca e reencontro.
Confesso que durante esta leitura fiquei um pouco amargurado (méritos do escritor) ao lutar com as personagens por não desistirem das suas escolhas e eu (com um nó na garganta) a lutar para não desistir do livro, talvez por não querer estar na pele dos protagonistas, talvez por me doer só de pensar que um dia também vou perder. Contudo, também eu sou um filho, a tentar compreender se a via escolhida para o final é a melhor possível.
Algumas esquinas e recantos mais ou menos iluminados deste livro: Sabes quais as etapas do processo a que vais ser submetido, os pormenores, como é que eles actuam. - Sei exactamente. - Pensas no futuro? Como será o regresso? O mesmo corpo, sim, ou um corpo aperfeiçoado, mas então e a mente? A consciência permanecerá intacta? Serás a mesma pessoa? Vais morrer como alguém com um certo nome e com toda a história e memória e mistério reunidos nessa pessoa e nesse nome. Mas acordas com tudo isso intacto? Será apenas uma longa noite de sono.
pág. 53
Não vais morrer antes de eles te congelarem o corpo? Há uma unidade especial. Zero K. Baseia-se na vontade do individuo de fazer um determinado tipo de transição para o nível seguinte. Por outras palavras, ajudam-te a morrer. Neste caso, porém, no teu caso, o individuo não está próximo da morte, nem de perto nem de longe. pág. 114 Se pagarmos aos futuristas a sua maquia de assassinos a soldo eles tornarão possível vivermos para todo sempre. O casulo seria o derradeiro santuário das prerrogativas do meu pai. pág. 119
O isolamento não é um retrocesso para aqueles que compreendem que o isolamento é o isolamento primordial. pág. 127 Quando ele se juntar a ela, dentro de três anos ou dentro de treze, será que as nanoteconologias irão reduzir-lhe a idade? E no momento em que os fizerem regressar à vida, seja lá quando for, no primeiro instante da sua vida terrena depois da morte, será que Artis vai ter vinte e cinco anos, vinte e sete, Ross trinta ou trinta um? pág.145 Será que eles alguma vez ficam de pau feito, os mortos nos casulos? Sobressaltados por uma qualquer anomalia técnica, uma mudança nos níveis que gera uma espécie de zing a percorrer o corpo e leva as pichas deles a erguerem-se, todos os homens ao mesmo tempo, em todos os casulos.
pág. 147
Estava a pensar acerca do livre curso do passo a passo e do palavra a palavra que experimentamos lá no alto, lá longe, enquanto caminhamos e falamos debaixo do céu, enquanto nos besuntamos com bronzeador e concebemos filhos e nos vemos a envelhecer no espelho da casa de banho, ao lado da retrete onde evacuamos e do duche onde nos purificamos.
pág. 243
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Este texto reflecte uma perspectiva pessoal (um pouco enviesada) que tenho sobre o temática do livro e não uma crítica ao livro em si, porém sinto-me inteiramente grato pela leitura proporcionada.
Já tínhamos fotografado a petinha-de-garganta-ruiva quando entrávamos no carro e fomos surpreendidos por um ataque aéreo perpetrado por um falcão-peregrino às gaivotas que descansadamente alimentavam-se na praia. O voo foi rasante mas a fuga das aves operou-se com sucesso, porém o falcão não se deu por vencido e mudou de rumo e de alvo, investindo contra um pobre corvo-marinho que cruzara os céus naquele momento. Ainda procurámos pelas aves nas dunas mas não encontrámos vestígios do vencedor ou restos do vencido. Não sei se o corvo-marinho escapou com vida depois de várias investidas violentas num céu que até então parecia calmo. Leis da natureza e dos ares.
Neste mês de Janeiro avesso à chuva e com temperaturas baixas fomos até à Foz do Sizandro na esperança de encontrar a petinha-de-garganta-ruiva, e quem sabe, com um pouco de sorte, não dávamos de caras com alguma outra raridade. No local andavam muitas petinhas confiantes e seguras das nossas dúvidas ornitológicas, voando de poça em poça, dificultando a tarefa de acertar com espécie pretendida. Não foi fácil dar com a menina que nos levara até ali, contudo o canto foi o elemento diferenciador que nos ajudou a identificar e depois seguir a ave nas suas incursões por entre lama e poças de água. Durante duas horas observamos o bicho várias vezes e seguimos as suas intermitências comportamentais. Quem nos visse do ar, depois de tanto caminhar, por certo teríamos desenhando com os nossos passos um traçado labiríntico naquela zona. Antes de irmos almoçar conseguimos alguns registos para a posterioridade desta petinha-de-garganta-ruiva (Anthus cervinus) na Foz do Sizandro. Seguiu-se o almoço no restaurante Ponto Final onde degustei uma adorável dourada escalada regada com vinho branco - recomendável. A tarde fomos à procura de gansos de faces brancas mas o que encontrámos digno de registo foi o ataque aéreo de um falcão-peregrino a um corvo-marinho que foi completamente apanhado de surpresa, como podem ler no próximo artigo.
Por vezes colaborante esta petinha permitiu alguma aproximação.
Tão depressa parava como desatava a correr, perseguida por um qualquer inimigo imaginário.
Curiosa contemplava as movimentações das outras petinhas.
Contudo nunca se misturou com as outras aves.
"Ora poisava ali e depois voava para acolá", tantas foram as esperas e as incursões por aqueles terrenos, que fizemos vários quilómetros atrás desta ave irrequieta.
Perante o eminente naufrágio nuclear no leito Tejo
a vala está a ser escavada do outro lado da não-fronteira,
o corpo liquido é só um e não há limites para o arrastão,
enquanto os nossos vizinhos assobiam para o lado
cheios de salamaleques e boas intenções,
assistimos ao prolongamento de um tempo
em que a validade à muito expirou.
A central nuclear está fora de prazo,
e o armazém de fantasmas não é bem-vindo
nós não queremos entrar
nessa casa de horrores,
onde se varre para debaixo do tapete
a merda radioactiva paga por euros tóxicos.
Como se o rei fosse nosso
e os detritos nucleares também,
os nossos vizinhos colocam o lixo à nossa porta
e esperam que a terra não estremeça,
e a água não enlouqueça,
no decrépito mausoléu nuclear
em que um dia nos podemos tornar.
Isto não vai correr bem...
enquanto o caldo não entorna,
vamo-nos queixar à comunidade europeia
como se fosse a saia da nossa mãe!
Enfim... já temos idade para ter juízo!!!
e aprender com os estilhaços da história...