sexta-feira, 22 de maio de 2026

90 anos

 

Nas margens da distração tudo me caí das mãos

ferramentas de carpinteiro, livros, maças, olhos de peixe 

Oiço-te dizer “vai com jeitinho” quando não tenho engenho

com o óleo dos motores, nem feição para as curvas da vida.


Os teus pinheiros crescem à tua procura,

os cafés continuam a acumular pó de sonambulismo

os vizinhos envelhecem mais rápido que o prédio

enquanto a casa espera-te para adormecer de vez.


Já ninguém pergunta por ti ou pelas tuas pernas cansadas,

excepto eu, quando barafusto com Deus, 

junto às fotografias onde sorris

numa sessão de ritmos perdidos.


Sabes Pai, passei a gostar de açorda alentejana!

como não estás cá para casar os coentros com o alho e azeite…

a punho, a vida dilui-nos, sem nos apercebermos.



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