segunda-feira, 10 de julho de 2017

depois do fogo rebentam eucaliptos








sabes porque ardem de velocidade as portadas?
lá fora o lume prende-se aos pés,
dos animais, das casas, dos egos,
lá fora é tudo tão frágil e rápido
como as folhas quadriculadas
onde aprendeste a somar 1+1 igual a sozinho
ou os fósforos que vês arder no cinzeiro
depois tentar adivinhar o futuro num chá,
tentas apagar o incêndio de todos anos mas não te apagas
das memórias, do sol, ou da serra enfeitada de ambulâncias.

sabes... num piscar de olhos e tudo muda,
a cor, os lábios secos, o calor, a pele aflita
tão rápido em cinza pincel,
fomos nós que fugimos por estas escadarias
até lá ao topo,
no alto das dores e dos músculos
fartos das doença do silêncio.

a madeira sangra o desleixo do homem,
o que fica desta paisagem queimada?
uma casa, uma eira, uma horta, lunar
um estendal de fogo remexido de nada;
e depois das chamas já rebentam eucaliptos das estradas

sabes porque não consegues fechar estas portadas?
uma senhora de idade limpa as cinzas do caminho,
com a bengala,
prenda do último natal de um dos netos de lá de fora.






terça-feira, 20 de junho de 2017

Pica-pau-malhado-grande no Parque Florestal de Monsanto


No âmbito do projecto 4 Estações sobre Monsanto tive o privilégio de observar algumas rotinas de uma família de pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major). Estes são alguns momentos de ternura. Foi curioso observar que o pica-pau juvenil instigava o progenitor a despachar-se na busca por mais alimento, bicando-o para ele se apressar.














segunda-feira, 19 de junho de 2017

Até quando o fogo?






ao manto de fogo que tudo arrasta
segue-se a dor de não ser chuva,
de não ser torrente de água madrugadora
sob a fogueira que consome este país.

o maior dos incêndios cava silêncios inexplicáveis,
e nós rendidos à força cruel desta besta de lume,
vemos calcinados carros de horror,
estradas sem saída, ladeadas por paredes infernais,
florestas de cinza e tantas vidas feitas ruína,

homens, mulheres e crianças de uma triste Pompeia Lusitana.


aos Bombeiros e aos Homens destas e de outras terras,
(quantos deles enlutados também, meu Deus)
que lutam para apagar este círculo de inferno:
com a força dos heróis que os move por não deixar cair,
a esperança do que fazer com a cicatriz do amanhã,
o que fazer com este punhado de terra queimada. 


silêncios de tantas vidas por florir.






sábado, 17 de junho de 2017

O torcicolo (Jynx torquilla)




Esta foi mais uma visita ao abrigo fotográfico do Parque Ambiental do Alambre, situado no Parque Natural da Arrábida, com o intuito de fotografar uma espécie que há muito me escapava - o torcicolo. Por ser véspera de feriado não apanhámos trânsito na ponte e a travessia do rio Tejo fez-se com rapidez e tranquilidade. Quando chegámos ao local, as nuvens eram escassas e já se faziam sentir os ecos de um verão anunciado. Antes de montar as máquinas fotográficas nos tripés, tivemos a necessidade de colocar uma segunda rede de camuflagem nas janelas do abrigo, uma vez que a rede camuflada que lá estava não apresentava as melhores condições. Contudo, o simples acto de abrir uma janela desencadeou uma guerra de imprevisíveis consequências. Nós bem esbracejámos, rogámos pragas e impropérios mas de nada valeu. As hostilidades estavam abertas. Um ataque certeiro, desferido por vespas irritadas, que sentiram o seu espaço invadido, obrigou-nos a fechar a janelas e a debandar. Fui picado na orelha e a dor foi forte, ainda tentei amenizar com água mas não havia muito a fazer senão deixar que o mal-estar diminuísse. Enquanto a dor não passava, os chapins e os verdelhões espalhavam encanto nos raminhos adjacentes e no espelho de água de tantas sedes. Com o passar das horas fiquei melhor porém não havia sinais do torcicolo. Já passava do meio-dia quando verificámos que o tronco seco de uma árvore contígua ao abrigo estava ligeiramente mais alto. O prolongamento desse tronco sofria do efeito de mimetismo do torcicolo. A ave estava no topo do tronco como se fizesse parte do mesmo, sem diferenças assinaláveis para os observadores mais experimentados. Esta espécie de pica-pau de plumagem críptica e que tem o curioso hábito girar o pescoço com um contorcionista, regressou mais duas vezes para gáudio das criaturas que tanto ansiavam o seu aparecimento. E já passava das treze horas, quando pedíamos só mais uma tentativa para fazer uma outra fotografia (aquela fotografia melhor do que qualquer outra), quando o aviso suou. Primeiro um som ténue, depois a movimentação de uma pequena sombra voadora, até que a vespa atacou novamente e eu fui atingido na minha face rubra de contentamento. Era este o preço a pagar para fazer algumas fotografias deste pica-pau e não havia tempo para lamentações. Estávamos a mais naquele local era hora de partir com os restos de uma sorte naturalmente efémera.
















Agradecimentos:

José Frade
Manuel Aldeias




quarta-feira, 31 de maio de 2017

José de Almada Negreiros - uma maneira de ser moderno








Depois de umas férias passadas no clima tropical da Costa Rica, tinha marcado na minha agenda visitar a exposição "uma maneira de ser moderno" de José de Almada Negreiros, na Fundação Calouste Gulbenkian. Foi sem dúvida alguma uma exposição inspiradora de tão multidisciplinar.

Sem dar por isso, perdi-me pelos corredores onde as obras eram autênticas massagens cerebrais. Perante tamanha dimensão artística senti-me pequenino, contudo admirador de obra maior, de artista maior, como é o caso de Almada Negreiros. Tantas foram as linguagens híbridas, quase mutantes, de uma performance constante, num espectáculo de palco invisível. Desde matemática, poesia, desenho, pintura, cinema, escultura e muitas outras colaborações com outros artistas, todas estas ramificações e cruzamentos criativos assentam como uma luva nas mãos engenhosas do génio de Almada. Um toque único, uma mensagem quase sublimada em camadas de intenções. Geografias e auto retratos de um artista em torno das circunferências perfeitas e ângulos de ouro. O traço de lápis aguçado pelos labirintos de papel, de onde espreita sempre algo capaz de espanto maior. Muitos quadros sem nome, porque o nome é tantas vezes assessório, quando as definições não cabem em si mesmas de redutoras. A modernidade do futuro passageiro depois de ser pronunciado o verbo.  Foram mais de 2 horas a caminhar em ritmo de admiração, no meio de tamanha diversidade de ofícios, entre pisos e corredores de surpresas. Confesso que já me doíam os pés, todavia, a alma andava feliz a domesticar ilhas de tamanha viagem.  













quinta-feira, 11 de maio de 2017

Costa Rica - o início



Costa Rica - até agora esta foi a maior viagem que fiz. Como são pequenas as minhas latitudes. Nunca tinha saboreado aquele lado do mundo.  Revelo aqui os primeiros passos, deste os preparativos para a viagem até ao voo onde passei mais de onze horas.  Uma vez lá chegado foi uma experiência única, exigente fisicamente, onde vivi momentos extraordinários e onde quase me fiquei. Cometi alguns erros de preparação mas acima de tudo valeu a pena porque trago um novo mundo de histórias para contar.

Este é o episódio 0


A mala


Nas nuvens...


O voo pelo mar das Caraíbas


A primeira cerveja - já na Costa Rica



A casa - Sarita´s Casitas em Monteverde



Depois do rebate da porta um eterno jardim.


E nas imediações desse jardim andava o meu primeiro beija-flor -Steely-vented Hummingbird (Amazilia saucerottei))


eu fiquei a pensar no próximo disparate feliz.


                                                                        Continua...




segunda-feira, 8 de maio de 2017

Bufo-pequeno (Asio otus)



Nesta madrugada fui até à Ponta da Erva e depois até Pancas, com intuito de testar o suporte para o flash em fotografia nocturna. A ideia era verificar, se com o flash afastado do corpo da máquina, seriam evitados as indesejáveis fotografias de bichos com olhos vermelhos (os resultados foram razoáveis, dependendo da inclinação da máquina, como se pode ver nas fotos). Na Ponta da Erva apenas formam observadas sete corujas, em duas tentativas que fizemos pela lezíria. A escassez das observações talvez tenham ficado a dever-se ao facto de haver vários talhões com água para o cultivo do arroz, o que poderia ter afugentado os ratinhos, tal como, estarmos em plena época de nidificação. 


Estava reservada para as imediações da Reserva Integral de Pancas a surpresa da noite, quando fomos surpreendidos pelo som agudo de um juvenil de Bufo-pequeno (Asio otus)) que se atravessou à frente do carro para depois voar para o alto de um pinheiro. Após tirar algumas fotos, a ave virou-se costas para comer descansada um senhor rato, tudo isto com maneiras e etiqueta. 

Seguem-se alguns testes...















Descobrir Dublin em 3248 minutos

Lisboa 5:20  -  Aeroporto de Lisboa um formigueiro de vidas apressadas. Após duas horas e meia de voo, saímos do aeroporto e já escutava um ...