terça-feira, 11 de outubro de 2011

Noitibó-de-nuca-vermelha


Em Évora,
depois de darmos uma dúzia de voltas de reconhecimento
pelo monte e pela casa cimeira que sustinha Vénus de cair
na garganta térrea, no vitral crepuscular que nos lava os olhos,
encontrámos os pequenos seres de que falavam os insectos amedrontados.

Os anjos nocturnos querem-se discretos, mas acima de tudo,
desejam passar despercebidos por entre o canto motor da noite,
onde confiamos tanto na camuflagem dos pecados
que quase pisamos as virtudes.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Peter Murphy - Concerto em Lisboa - 02-10-2011



a Peter Murphy (Ulissipo, 2ª lua de Outubro negro, ano 11)



descalço, de voz sem igual,
a mesma pose imponente de sempre,
animal de pó de palco nocturno no adejar de braços que já foram asas
do tempo das capas negras
e dos vampiros em vermelho fragmentado quase água forte


"Bella Lugosi's Dead" 


o momento que já não volta mas que nunca se esquece,
como as  coisas boas que aprendemos e não subtraímos o seu sabor

"Silent Hedges”
o palco cheio, o anfiteatro cheio, e eu, por instantes, num escafandro corporal vazio, sem pinga de sangue,
a minha voz sem fala, a minha alma sem dor (pelo menos daquelas)

“She’s in parties”



“All I ever wanted was everything" 
com a estranha sensação que já estive ali,
naquele mesmo sítio,
que já vivi aqueles momentos
talvez numa outra vida dentro deste invólucro invisível

“Hurt”
foi uma noite onde se celebrou o regresso das coisas cá de dentro;
uma noite em tudo diferente de tantas outras
onde o fluxo sanguíneo foi invertido pelo mecanismo cardíaco das palavras novas,
memorial de sentimentos divergentes, cambiantes originais, matérias primordiais e memória.

“The Prince And Old Lady Shade”




“All Night Long”
isto porque...
nunca voltamos ao mesmo sitio e sentimos as mesmas coisas de forma igual;

“Cuts You up”


sentimos-nos diferentes,
como um livro que redescobrimos que não tem pontos finais,
quanto mais não seja, uma virgula de fala embargada,
e lemos o que fomos um dia:
aquilo que não voltaremos a ser, recordamos apenas,

a calda quente de uma noite em assobio lunar
vertigem, saudade, amor e fogo que não queima os dedos,

E no final, uma canção que não pertence a esta vida,
mas a outras vidas dentro e fora desta.

“Strange Kind Of Love”


sábado, 1 de outubro de 2011

Abelharuco


Da chaise-longue despida de corpo na Ericeira
ela lembrou-se daqueles dias espreguiçados numa folha de calor:
dos cafés frios, dos gelados mornos, dos bolinhos da pastelaria matinal,
das correrias ao fim da tarde, dos sorrisos de nata queimados em juras,
da língua salgada da praia e dos corpos derretidos na falésia;
e de tudo o resto marginal que foi promessa breve
que não almejou ser desejo apenas queda da pele transparente.

Antes de fechar a porta das águas furtadas, poiso de férias,
ela enrolou o rosto num incógnito e multicolor turbante,
pegou nas malas cheias dos segredos que as saudades calam
e por fim, certificou-se que perdia a chave no local do costume.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Convite: Café Poema 30-09-2011







Um desafio.
É certo que a voz da poesia não tem sexo. Contudo, curioso será ouvir;
um poema escrito por uma mulher declamado e defendido por um homem, e
um poema escrito por um homem interpretado e protegido por uma mulher.

Numa batalha de versos conjugais, que se quer pacífica, onde os sentimentos das vozes que sentiram serão diferentes dos ecos que as repetem.

O desafio está lançando. Não se sintam rogados e venha de lá essa voz.








quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ciclo de entrevistas - Café Poema com Branca Rodrigues



Devagar...  Vamos dar início a um ciclo de pequenas entrevistas  com os artistas que assistem ao Café Poema no Cappuccinos Coffee Shop em Carcavelos.


A nossa primeira convidada é Branca Rodrigues, pintora e frequentadora assídua da nossa tertúlia e com uma exposição de pintura patente no Tea Lounge na Parede.


Entrevista com Branca Rodrigues, em 4 perguntas:
 
SG: Para si, como nasceu o gosto pela pintura?

BR: Já veio comigo desde pequenina. Aos sete anos fiquei fascinada com a revista “ Fagulha” e o "Cavaleiro Andante". Lá em casa, todas as revistas que eu apanhada, era o suficiente para ir ver logo as ilustrações, e era isso que gostava mais. Nos livros, as ilustrações Conde Monte Cristo tornaram-se marcantes. Tal como as histórias do meu pai sobre bruxas e o lobisomens. Gostei muito de geometria, que o meu irmão estudava, era o rigor. E visitava os Oleiros ( havia 9 nove em Árgea, concelho de Torres Novas distrito de Santarém) e fascinava-me com os desenhos que eram feitos. E até ajudava...
Sempre gostei de desenhar. A minha primeira exposição de pintura foi no clube Naval em 2001.

SG: Onde se inspira?

BR. A minha pintura é uma viagem.
É o que me vem à cabeça ( ou de outro lado qualquer) e vou-me lembrando das coisas que acontecem durante essa viagem; começo a pintar os sítios, às acções, às emoções, recordações e as sensações. O meu o trabalho não é auto-biográfico, é antes, movimento gestual expressivo . Uma viagem até à praia é inspirador. Já pintei na rua. No meio de muita confusão fico concentrada. Dá-me liberdade de pensar. É um gesto rápido, uma pincelada de cor, e no fim fica bem...
 
 SG: Pintores que mais admira?

BR: O meu primeiro contacto com Pablo Picasso foi marcante. Tal como a vida dele e a maneira como ele via a arte. O tamanho da Guernica fascinou-me. Em El Greco, identifico-me muito com a linha das figuras no expressivo movimento das mãos. No caso dos portugueses, gosto muito do Pomar e do Júlio Resende.
 
SG: E a Poesia?

BR: Gosto de poesia porque tem muito movimento e ritmo... O meu poema favorito é do Cesário Verde o “piquenique de burguesas” e claro o "Livro do Desassossego" do Fernando Pessoa.

Então, para Branca Rodrigues, aqui fica:

DE TARDE

Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde (1855-1886)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Guarda-rios




Para Carlos Rio:

Dizem que naquele dia roubaram o sol;
a chuva era uma sílaba que se desejava de rápido sabor
do rio até às nuvens estendia-se uma escadaria de degraus infinitos,
quando uma flecha de azul celeste cruzou o estuário das almas,
e da infértil terra de cemitério nasceram flores
que ainda hoje voam.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sisão / The Little Bustard / (Tetrax tetrax)

No Alentejo, quando se sai da cidade Pax-Julia,
virando à direita, em direcção dos vinhais de Vitigeria,
há um ponto de coordenadas mágicas;
uma janela dimensional suspensa entre duas árvores de sobro
que mudam de lugar todas as noites:
audazes daqueles que a descobrem e fazem o tempo parar.

Nesse instante,
a voz do vento e da mulher despida de paisagem disse-me para ficar:
“só mais um segundo, por mais ínfimo que seja,
apenas mais um segundo, só meu e das coisas só nossas
não é pedir muito, pois não?”

Antes de desfazer as asas brilhantes de película binária que me trouxeram até aqui
contemplo o cosmos que trago na ponto dos dedos,
imagino que no topo dos sobreiros possam existir cidades tão pequenas
que fazem inveja às cidades inimagináveis do que nunca fui.

Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...