Na sua boca as palavras tinham outro sabor. As pausas, os silêncios, conferiam um significado às sombras que deslizavam nas conversas. Dava poucas entrevistas, porém quando falava ficava quase sempre algo no ar. Como os ecos de uma explosão ou as ondas de choque de um tremor. Lembro-me da sua imagem distante, mas não fria, sentado, abrigado do calor por um chapéu de sol, numa feira do livro qualquer. O mar nos seus olhos e o contorno da curva das palavras escolhidas como se fossem gotas de sangue, o intervalo entre sílabas era colmatado pela dança de um cigarro entre dedos. Uma longa fila de leitores esperava pela oportunidade de uma assinatura e de uma breve conversa. Eu era mais um entre muitos. Em 1997, a feira do livro deu-me a conhecer o homem que tinha inventado uma nova escrita. E foi com enorme prazer que falámos das coisas que desanimavam o breve mundo das circunstâncias. Voltei a encontrar-me com ele em 2001 e disse-lhe que gostava muito dos seus livros. Deve ser a pior coisa que se possa dizer a um homem destes, pensei, mas não me ocorreu nada de muito inteligente para alvitrar. Ele não se importou e falou-me da filha. Eu senti-me nu no meio de um deserto. O seu sorriso calmo suavizou a minha vergonha circunstancial. Depois, pediu a alguém para lhe ligar à filha. Aquele homem de opiniões fortes e silêncios poderosos possuía guerras dentro de si, tal como, sabia como as adiar. As batalhas nunca terminam, adiam-se para outro calendário. O médico que ouviu e retratou os estilhaços da guerra de ultramar, tornou-se num escritor único na literatura mundial. Lembro-me de o ouvir dizer que os maiores escritores não ganharam nenhum prémio Nobel, que cada parágrafo era muito precioso e que cada livro seu não passava de um xixi no oceano. Por aqui termino, com a esperança que António Lobo Antunes continue a reescrever a consciência humana numa outra mesa flutuante.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
António Lobo Antunes
Na sua boca as palavras tinham outro sabor. As pausas, os silêncios, conferiam um significado às sombras que deslizavam nas conversas. Dava ...
-
E assim dei por terminada a leitura destas páginas que me inquietaram durante mais de um ano. Debaixo do braço ou na mochila, transport...
-
Em Junho deste ano, quando estava a gravar a entrevista para a reportagem da Sic sobre o Parque Florestal de Monsanto , perguntaram-s...
-
No reino das objectivas vintage com um cunho muito pessoal, há muito que procurava esta lente reconhecida pelo seu efeito mágico bubble ...


Sem comentários:
Enviar um comentário