Desde sempre que aprecio o modo de vida dos felinos. Um dos momentos altos da minha paixão pela vida selvagem talvez tenha sido observar um leopardo a surgir do cenário de savana africana que o camuflava perfeitamente. Com a calma de quem põe e dispõe da lei do mais forte, o leopardo avançou na nossa direção sem ter receio ou vergonha. Estava abstraído pelo silêncio dos seus passos, quiçá a pensar no que seria o almoço. Com a indiferença selvagem de ser dono do relógio de predador e que a qualquer momento tudo pode acontecer, e ele, mais uma vez, seja declarado vencedor. O tempo quente daquela manhã de maio, em Samburu, no Quênia, fazia com que grande parte dos animais procurasse alimento às primeiras horas do dia. O leopardo sabia que nós íamos passar por aqueles caminhos pejados de arbustos despenteados por aves inquietas. Nós nem sonhávamos que o mato rasteiro também podia morder de beleza e harmonia. O jipe fazia barulho e o grande gato já o ouvia a quilômetros. O leopardo sentia a música da nossa linguagem, o arpejo do nosso cheiro. Saboreava a nossa ansiedade que se liquefazia pelos poros da pele. O nosso suor era um marcador de fraqueza, o alvoroço cardíaco que nos desnorteava. Os felinos sabem que os humanos passam e eles continuam. Calmamente, tão seguro quanto sarapintado, como magia africana, ele fundia-se nos arbustos e voltava a aparecer mais elegante que nunca. Que animal! Repeti para comigo: não esperava que fosse assim. Único! Estava tão nervoso que o vídeo e as fotos que se seguem ganharam uma assinatura de tremeliques. Os meus amigos enalteciam em surdina a beleza do felino. O calor queimava as palavras, porque o leopardo já não se comove com tantos adjectivos e considerações. Só anos mais tarde, digeri a dimensão deste momento. Sabem de uma coisa? Este foi aquele instante em que nos mordemos, arranhamos, e nem o sangue nos faz acreditar no que a memória cavou bem fundo. O leopardo deixou-me perdido nesta terra de vermelho esperança.
As manchas na pelagem do leopardo, denominadas por rosetas, são únicas e servem para identificar cada indivíduo, tal como as nossas impressões digitais.
A visão noturna extremamente apurada que o transforma numa máquina de matar crepuscular.
O leopardo-africano (Panthera pardus) é um animal que vive e caça sozinho, socializa apenas no decorrer do período de acasalamento e por vezes, durante o tempo as fêmeas cuidam das crias.





_DxO.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário