domingo, 23 de abril de 2017

Orquídeas silvestres de Abril




Às vezes não é preciso percorrer grandes distâncias para sermos surpreendidos pela magia da natureza. Por vezes os pequenos grandes fenómenos naturais sucedem-se mesmo do outro lado da rua. Foi isso que aconteceu quando saí de casa para fazer uma caminhada ao deparar-me com uma pequena orquídea silvestre Serapias parviflora, de nome comum serapião-de-flor-pequena, escondida no meio da vegetação. Depois de olhar com mais atenção, reparei que não era uma mas sim dezenas delas povoando os terrenos baldios que cercavam o acesso à estrada. Pé ante pé, com cuidado e com vista atenta para não pisar estas surpresas florais, menos de um metro à frente fui brindado com a explosão de cor de uma outra orquídea, a Anacamptis pyramidalis, também conhecida por satirião-menor. Esta extraordinária planta iluminou o meu silêncio de fim da tarde. Ao fazer algumas fotos reparei que a orquídea estava a ser usada como ninho para aranhas que de pétala em pétala urdiam a sua teia. São estes os desígnios que a natureza tece pela sobrevivência das espécies, enquanto eu percorro mais um dia pela fragilidade destes olhos.



Deitado no chão junto da Serapias parviflora, em segundo plano surge a Anacamptis pyramidalis.

Vários estágios do crescimento da planta:


Pormenores da flor da Serapias parviflora 





A menos de um metro duas orquídeas diferentes. Com o foco a incidir sobre a Anacamptis pyramidalis deixando em segundo plano a Serapias parviflora.



Composições com a Anacamptis pyramidalis  e os sua vizinhança amarela. 



Pormenores das sépalas, pétalas e labelo.


E quando a aranha faz da orquídea a sua casa.





sábado, 22 de abril de 2017

Time lapse na gaiola-das-bruxas (Clathrus ruber)



Recorrendo à técnica de time lapse, foram precisos 12 dias para filmar o evoluir do cogumelo gaiola-das-bruxas (Clathrus ruber) no Parque Florestal de Monsanto. Eis o resultado.



sábado, 15 de abril de 2017

Viagem a Carcassone




Ao longe surge as imponentes muralhas da magnífica Carcassonne, rasgando o horizonte, abrandando os ritmos as pessoas e das máquinas, num suspiro de espanto, vergando-nos o olhar, numa vénia por respeito à história que irrompe pelos poros da pedra forte. 



Ainda não tinha entrado na cidadela e já ouvia as espadas contra os escudos, em gritos de guerra, num frenesim imaginário de uma batalha medieval. Uma vez ultrapassada a fronteira que separa a ficção da realidade e já dentro da fortaleza, confesso que senti-me protegido dentro das muralhas do castelo, mas ao mesmo tempo, cercado por ecos de tempos sangrentos. 




Os ângulos desta fortificação falam guerra. Por entre torres, pontes levadiças, fossos e muralhas, surgem símbolos beligerantes de uma luta do homem contra o homem, tal como hoje, pela posse das  gentes e das terras.


Esta é uma construção da idade média conservada contra a passagem do tempo e da memória. A fortaleça inicial foi edificada no século XIII e por ela passaram muitos povos desde romanos, visigodos, celtas, sarracenos, envolvendo-se em disputas sangrentas.


Depois de séculos de batalhas que levaram ao abandono dos seus habitantes, Carcassonne entrou num perigoso declínio quase desfazendo-se em ruínas, não fosse a reconstrução no século XIX, levada a cabo por Viollet-le-Duc, que também reconstruiu Notre-Dame. Carcassonne foi declarada Património Mundial da Unesco em 1997.


A cada esquina, a cada recanto da cidadela, deambulavam muitos turistas das mais variadas latitudes e de linguajar diversificado. Tal como eu, caminhante de máquina fotográfica em riste, imbuídos de uma paz efémera, em comunhão com a história, e porque não dize-lo de olhos sedentos por contos de fadas.



Passo após passo, de sentidos apurados, seduzidos pela oferta comercial dos sabores e das recordações que se levam para casa, para não esquecer que às vezes vivemos dentro de uma lenda. 



Finalmente, encontrei silêncio no recolhimento da basílica de Saint-Nazaire, ornamentada com vitrais que filtram os esboços do mundo exterior e um de imponente órgão onde as melodias dos silêncios e dos passos de fé se fazem escutar. 






A basílica de Saint-Nazaire foi construída no século XII e resulta da perfeita combinação dos estilos românico e gótico.


Já no exterior, as gárgulas da basílica olham-nos com a urgência de um alerta, inquietando-nos com a sua crítica monstruosidade de desaguadouro águas.


É como se nos estivessem a dizer que o demónio nunca dorme, exigindo a nossa máxima atenção, mesmo em locais sagrados. O mundo anda sobressaltado com o terrorismo e as eminentes roturas políticas que se advinham. Por enquanto, as gárgulas continuam no mesmo sítio e de lá vociferam avisos; as cidades e suas as muralhas tantas vezes invisíveis, contam-nos histórias de distantes batalhas entre povos, espaçadas no tempo, guerras surdas de actualidade gritante. De olhos postos no céu, às vezes pergunto-me, tinha mesmo que ser assim? E as gárgulas, nos dias em que não são de pedra, por certo também...









Agradecimentos: Família Frade

terça-feira, 21 de março de 2017

ARMS





No fim de tarde de pensamento calmo,
caminhava  pelo lado esquerdo da rua,
protegido pelas ramificações silenciosas das árvores, 
seguindo incógnito e sombrio o rasto das osgas,
junto ao muro da fábrica de interruptores bilingues.

Porém, sem saber bem porquê,
mudei para outro lado da rua, perto da esplanada,
onde passam a correr os putos que transportam a escola às costas;
aquele passeio junto aos prédios onde moram pessoas e problemas,
em comunhão desfeita com outros problemas e outras pessoas.

Este é, sem dúvida...
o lado mais luminoso da rua, onde a noite chega mais tarde,
muito depois de anoitecer no lado esquerdo de qualquer rua do mundo,
o lado direito tem mais luz, tem mais cor e mais gente encaixotada,
não e uma questão política, é apenas uma opção entre um lado do passeio.

E quando avançava tranquilamente pela direita,
surge a surpresa e o abalo das recordações perenes
ao ver ARMS à minha frente sentada na esplanada, 
22 anos depois de nos separáramos ainda miúdos,
e de nos maltratarmos para o resto dos nossos dias,
tal não foi a implosão daquele amor.

22 tempos de juventude e mil possibilidades, 
na altura a vida tinha uma cor e um peso diferente,
anos antes...
a fábrica interruptores bilingues dava emprego a muita gente,
a minha mãe e a minha tia lá esgotaram saúde,
a sirene que chamava os operários ecoava pela vila,
às vezes fundia-se com os sinos da igreja.
não sei se havia esta esplanada mas já existia o bairro novo,
e grandes borboletas que queriam comer osgas...

ARMS...
de rosto afiado e olhar felino,
há 22 anos lembro-me da tua ilha,   
juntamente com os longos cabelos de primavera
corpo esbelto de menina, tangente perfeita ao fruto 
e hoje, sem saber porque raio de destino enviesado, 
eras tu que estavas no lado direito da rua 
e eu à tua frente  do lado improvável do acaso.  

Durante segundos olhámos os segredos que a pele emudecia
depois procurámos a cor de um abismo que nos fizesse desviar o olhar,
num desmando autoritário para com as pedras da calçada,
porque só elas sabem ARMS...
a água que sulcou esse chão de vento.







sábado, 18 de março de 2017

Orquídeas de Março



Março trouxe o sol desafiante e revigorador que se insurgiu contra o frio, num apelo claro ao contacto com a natureza e com as suas inesperadas surpresas. Depois de várias incursões pelo Parque Florestal de Monsanto, fui coleccionando registos de orquídeas que surgem na linha temporal do terceiro mês deste ano, e que embalam de beleza e melancolia o eixo laminado dos restantes dias. 


Erva-vespa (Ophrys lutea)


Erva-mosca (Ophrys bombyliflora



Cephalanthera longifolia


Barlia robertiana (Himantoglossum robertianum


Gennaria diphylla 




quinta-feira, 16 de março de 2017

Coelhos do Jamor


Tenho que andar muito, fazer muitas caminhadas, muitos quilómetros para combater uma maleita que me irá atormentar se não o fizer. Foi com esse intuito que palmilhei os terrenos contíguos ao Centro Desportivo Nacional do Jamor, levando comigo a minha pequena companheira de caminhadas - uma velhinha máquina fotográfica, não fosse surgir algo que me fizesse arrepender de a ter deixado em casa. Foi curioso observar toda uma multidão activa em torno de um complexo desportivo, gente das mais variadas classes etárias ou estratos sociais, a exercitar os músculos em plena comunhão com a natureza. A meia-idade endinheirada jogava golfe; no outro campo, os rapazes voavam em terríveis placagens de râguebi. Mais acima, dois sexagenários subiam e desciam heroicamente as bancadas desertas, enquanto nos trilhos, as meninas corriam  de cabelo apanhado e leggings de justa curva. Confesso que gostava de desatar a correr por aqueles campos a fora, qual desvairado maratonista, mas resfriei esse impulso para outra oportunidade e deixei esses feitos para quem se treina afincadamente, obviamente não é o meu caso. No Jamor foi bom constatar que existe uma população fervilhante e crescente num treino global. Não muito longe dali, num dos terrenos ao lado dos campos de golfe, fazendo fronteira com os campos de râguebi, vários coelhos-bravos (Oryctolagus cuniculus) assistiam às movimentações dos humanos, ao mesmo tempo que a sua natureza se exercitava nas práticas mais elementares de sobrevivência e boa disposição.











sexta-feira, 10 de março de 2017

Aves da Praia das Avencas / Parede


Sim eu sei, devia ter escrito este artigo em Novembro último, contudo tal não foi possível. Porém, não queria deixar passar o momento em branco, pois foi com enorme satisfação que registei o regresso das seixoeiras à minha praia; que é como quem diz à Zona de Intervenção Biológica das Avencas. 
A última vez que as observei esta ave por aqui foi em Outubro de 2013 como é relatado neste escrito. E com 4 meses de atraso...


Fotografias de 10 de Novembro de 2016










Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...