sábado, 4 de janeiro de 2025

Idade não é um posto


Nemoptera coa



Os biólogos afirmam que o tubarão-da-gronelândia pode viver mais de 400 anos. 

Este vertebrado atinge a maturidade sexual com 150 anos.

Por outro lado, a efémera, para além de ser um lindo insecto, vive apenas umas horas. 


Estava a pensar nisto, sendo eu um trabalhador por contra de outrem,

enquanto calculava a idade da reforma das abelhas obreiras.


Desisto. Desisto do tempo mas sei que Ele não desiste de mim.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Parabéns minha querida Mãe!




Fazias hoje 78 anos minha Mãe,

no teu aniversário oferecia-te uma rosa

e dava-te um beijo dizendo "muitos parabéns",

como se fossemos crianças felizes

no intervalo do recreio desta vida.



Tu aceitavas as rosas e buscavas uma jarra

onde ajeitavas as flores em direção ao sol,

e enchias com água corrente e pura,

como o nosso olhar encadeado pelo sorriso das batalhas

que vencemos mesmo perdendo.


Depois almoçávamos num restaurante chinês

de que tu tanto gostavas e onde o Pai perguntava

"onde está o pão, os chineses não fazem pão?"

numa doce teimosia de uma árvore que não tomba

 no final comíamos um gelado frito em run com um café da sorte

e voltávamos para casa a ralhar com o tempo.


Hoje quase tudo foi diferente.

pedi ao padre da paróquia que na missa ao invocar o teu nome

cala-se o buraco que trago no corpo e por onde

choram dias numa lâmina de ausência.



No cemitério fiz caminho até onde descansas,

repeti o ritual do teu aniversário:

o beijo, as rosas, os sorrisos e a luz.

fechei os olhos e num restaurante que ainda não existe,

os corpos de luz puseram a mesa a preceito,

para que ao almoço tivéssemos pão para partilhar,

numa outra membrana de vida por descobrir.


Parabéns minha querida Mãe!


sábado, 21 de dezembro de 2024

Conto de Natal - O colecionador de presépios

 

Uma vasta coleção de presépios, provenientes dos mais diversos cantos do mundo e concebidos com os mais variados materiais alegravam os seus olhos. Todos os anos elegia um conjunto de figurinhas para as festividades. No ano passado, o presépio eleito foi esculpido em osso, muito bem elaborado, até parecia que as estatuetas sorriam com as sombras. Todos os anos fazia pequenos embrulhos para oferecer a quem já não os podia receber. Junto ao presépio ele abria os presentes dirigidos aos mortos e rezava. Era uma forma de dar vida aos vários nomes com que batizava a solidão.

Nos primeiros dias de dezembro, de manhã cedo, dirigia-se a uma quinta abandonada onde enchia de musgo uma saca de serrapilheira. Ele sabia da importância do musgo para reter a água e prevenir a erosão do solo. Porém, as suas figuras do presépio precisavam de um local onde pudessem brilhar. Quando encontrou uma mancha de musgo prometedora, esgadanhou o solo e em pazadas cegas encheu a saca com grandes quantidades da plantinha verde, caruma, pinhas e tudo o mais que coubesse na boca apressada da pá. Certificou-se que ninguém o tinha visto e fugiu para casa. Fechou-se dentro de si e esperou pela sabedoria da noite.

A sala estava preparada para receber as personagens do presépio. Não havia lugar para uma árvore com uma estrela no topo, era um desperdício artificial de tempo. Por isso, apressou-se a forrar a tijoleira com um plástico para depois escolher e montar o cenário deste ano.

Foi buscar o musgo. Quando passava no corredor reparou em várias gotas que insinuavam um trilho. Acendeu a luz da dispensa e os seus maxilares estalaram de espanto. Tudo remexido, fora do lugar e da ordem das coisas. A saca estava furada, o musgo derramado, juntamente com os embrulhos esventrados. A dispensa fora violada. Aquele cheiro? A quem pertenceria aquelas gotas de urina?

Correu para a cozinha em busca de algo para imobilizar o intruso. O seu canivete digno de qualquer alentejano não impunha respeito suficiente. A pá que ainda continha restos de terra daria uma boa arma. Entrou na exígua dispensa e com muito cuidado removeu todos os sacos que estavam no chão. Nada. Olhou para as prateleiras que continham os presépios e os embrulhos e nisto ouviu um esgadanhar animal. Tocou em todos os sacos para que o intruso se pusesse a jeito de uma valente pazada. Silêncio.

Dirigiu-se ao seu quarto e retirou da escrivaninha uma lanterna com duas funções. Desligou a luz e acendeu a primeira função da lanterna. Um círculo de luz quente iluminou os seus passos. Depois ligou a segunda opção e um espectro de luz ultravioleta fez brilhar as gotas de urina. Dentro da dispensa apontou o feixe luminoso para as prateleiras. A caixa de presépio que continha a sagrada família dentro de uma rocha oca brilhava de azul-celeste. A caverna feita de geodo mineral refletia o espectro ultravioleta, enquanto um pequeno ouriço-cacheiro brincava de menino Jesus. Ele sorriu. A escolha estava feita.

 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

104 degraus

 

pela escadaria em esforço

subo a cicatriz do mármore 

enquanto os joelhos de cana velha cedem

(mas não me agarro ao corrimão!)

 

falha-me a junção da força motriz, 

como fosse ceifado por um stick de hóquei,

a vergonhosa dor leva-me a lamber o chão 

(não quero agarrar-me a nada! a nada, ouviste?)

 

recomposto, estou quase a atingir o último piso,

os joelhos gelatinosos bamboleiam,

os degraus vencidos celebram a minha última primavera   

são estas as vitórias de um homem de meia idade  

(coração aos pulos, sorri pá, sorri!)

 

escolhi as escadas para não ver ningúem!

 destilo sozinho a aguardente de lágrima

sinceramente...

a mulher que entrou no elevador

não era das colegas mais apessoadas.


sábado, 16 de novembro de 2024

Raposa-orelhuda ou raposa-orelhas-de-morcego? Para mim raposa com orelhas de abano.



Ainda o sol  lavava o rosto com areia vermelha, já em Samburu, Quênia, o calor tornava-se impiedoso para todos os bichos. A sombra dos arbustos era um verdadeiro  achado no meio de uma vegetação rasteira. Não fossem as suas orelhas estrondosamente grandes, quase passava despercebida esta raposa-orelhuda Otocyon megalotis, quando passou por ela um jipe com humanos incautos. É uma pequena raposa com apenas 45 centímetros, incluindo a cauda, pesando cerca de 3 quilos, exibe as suas orelhas de abano com a função de termorregulação, distribuído o calor pelo corpo, servindo também de radar na localizando das suas presas. Eram 5 raposas e nós 5  espantalhos sortudos em cima de um tronco com 4 rodas.










sábado, 9 de novembro de 2024

Leitura Portátil: Juan Rulfo - Pedro Páramo

 



Este foi o primeiro livro que li depois da partida da minha Mãe. Companheiro de horas solitárias, passadas na sombra, na sabedoria das árvores, no sono confuso das primeiras horas do metropolitano, ou na espera que uma tempestade deixasse um aeroporto em paz. Um pequenino livro, um gigante complexo. Li pouco em casa porque dói-me muito estar aqui, dentro da membrana desta lágrima. Estas são também as paredes de um livro com uma dor em comum, a perda e a ausência de respostas para essa falta. 

Não é um livro fácil, mas é um livro único. As constantes vozes que surgem de forma inesperada alertam-nos para acontecimentos que mais à frente iremos entender, (ou não) e apelam a uma releitura atenta. Várias vezes reli as páginas anteriores para entrar no ritmo, porém nem sempre resultou e por vezes senti-me ainda mais perdido. O realismo mágico dos mortos enterrados na aldeia e os seus diálogos, elevam esta obra a um patamar de ficção fantasmagórica.  

Tudo começa quando no leito de morte, a mãe do narrador pede que procure o paradeiro do seu pai Pedro Páramo, numa pequena aldeia mexicana chamada de Comala. Um local deserto, quente e árido, onde o mesmo inicia a busca pelo seu pai, ouvindo relatos sobre o homem mais poderoso e com mais influência naquelas paragens. Depois entram histórias dentro de histórias. Jogos de influências, chantagens e mortes deixando-nos atordoados e sem saber que livro temos nas mãos. Será este o mesmo livro que comecei a ler? Por certo que sim. Mas ainda não sabes onde isto te vai levar. O que é bom!

Respiramos pó num ambiente ressequido que nos mirra a boca. De página em página vasculhamos um labirinto intencional de equívocos. Para encontrar respostas (nunca definitivas) vamos ter que voltar e escavar com as mãos a história para nos perdermos novamente... Qual vida qual carapuça! 

E Juan Rulfo escreveu:

" Aquilo está sobre as brasas da Terra, na própria boca do Inferno. Basta dizer-lhe que muitos dos que lá morrem, quando chegam ao Inferno, regressam em busca do seu agasalho. “




Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...