sexta-feira, 5 de julho de 2019

Uma viagem até Kuusamo na Finlândia



O nevoeiro dissipou-se e depois de várias horas pelas desertas estradas escandinavas, à nossa frente anunciava-se um casario vermelho digno de um romance policial. Por todo o lado altos blocos de neve aguardavam pelo aumento da temperatura para o inevitável degelo. Na estrada de terra batida que dividia a floresta de bétulas espreitavam gnomos imaginários e outros de madeira que indicavam que tínhamos chegado ao nosso destino. Um casa ampla ladeada por árvores e um maravilhoso lago gelado. Os nossos anfitriões, um casal finlandês bastante amistoso, falou-no das curiosidades locais e dos bichos que poderíamos encontrar como lobos e corujas, povoando o nosso imaginário imediato de esperança. Convidaram-nos a usar a sauna mas essa experiência foi adiada, uma vez que o tempo era escasso e o chamamento pelos bosques era imenso.
Da casa em Kussamo recordo o chão aquecido, espaço arejado, o vestíbulo onde éramos obrigados a deixar os sapatos e a misteriosa sauna. Foi dos donos da casa que recebemos um presente, tratava-se de um púcaro de madeira,  do qual podíamos beber água de qualquer curso de água das redondezas. Este casal de finlandeses eram louros, altos e grandes e de sorriso fácil, o que deita por terra a teoria de que este povo nórdico é sisudo - nem todos.

Durante 3 dias percorremos os arredores em busca de bichos que tínhamos em mente, todavia a paisagem gelada despertava-me os sentidos para a magia do sol da meia noite. Era inevitável encontrar na candura da paisagem uma fonte de inspiração, na qual os escritores escandinavos recorriam com manchas de sangue a contrastar na neve nívea e imaculada. Os recortes de luz e os seus reflexos….


As nuvens e as árvores assistem pacientemente ao degelo


Aqui fica Kuusamo no mapa.




Noutro lago a camada de gelo é ainda muito espessa, convidaram-nos a andar por ali mas… 



Os meus passos na neve murmuram um certo desnorte, enquanto as árvores contemplam os raios de sol branco.


Nestes lagos vivos oiço rumores das coisas ditas pela brancura algures manchadas de sangue num  imaginário policial. 


Se olhares para o céu... resta o interminável eco ao adejar do último cisne-branco.


Brancas populações de árvores pareciam caminhar em direção às estradas. Destes trilhos restava o nada que alimenta a pedra. Sem gente, carros ou outro equivoco civilizacional, não sabíamos se o mundo acabou, ou estaria para findar num logaritmo tão saboroso quanto ignorante. Felizes às vezes… acelerávamos para dentro nós próprios - relógio ainda vivo, 


De curva em curva os caminhos faziam-se por terra batida.


De repente o cenário muda e somos hipnotizados pela neblina. Num último suspiro, uma venda branca desce sobre o corpo de neve. Até os pássaros respeitam o silêncio e a queda do momento. Tudo agora é outro.



Os pormenores humanos dos líquenes que se apoderavam do tapete de musgo, como trompas que beijam e sentem o cheiro do medo natural de estar vivo.


Os rebentos vegetais rasgam a farsa do nocturno despertar.


Abandono a sombra de algumas palavras e num registo mais cientifico volto a Kussamo e às suas aves. Um casal de mergansos-pequenos (Mergellus albellus) nadava calmamente num pequeno lago, fazendo as delícias de vários fotógrafos que tal como nós, sorvíamos o momento.



À beira da estrada uma fêmea de galo-tetraz (Tetrao urogallus) acompanhou o lento movimento do carro sem medo algum.



Para depois esconder-se, mimetizando-se por entre a vegetação.


Inesquecível será o som de gladiador do galo-montês (Tetrao urogallus), a ecoar pelos lagos gelados antes de uma luta de machos. Depois, todos os intervalos de silêncio são pormenores que nos fazem lembrar que ocupamos uma parcela ínfima numa casa que não deseja ser incomodada. 



De pose triunfal, sem medo de quem o contempla com admiração, ele segue a sua marcha em direção a uma outra arena para que se repita o ritual. E a nossa luta será...
Saber o que fazer com estes dias brancos de memória fina.



O gaio-siberiano (Perisoreus infaustus) veio espreitar quem eram aqueles que agora chegavam ao seu  parque de merendas. Foi assim que  o encontrámos e foi daqui que ele nos viu.


Às vezes "perto" não significa "bem". De tão próximo que estava do gaio-siberiano, e na ânsia de conseguir um fotograma, esqueci-me do inicio e fim do enquadramento. 


Em focagem manual, de outra forma não era possível registar este lagopo-ruivo (Lagopus lagopus) que escondido brincava com a nossa teimosia.



Um lago que pertencia aos cisnes-bravos (Cygnus cygnus) e nós respeitámos a sua vontade.



Houve alguns que não gostaram da nossa presença. Compreensível. 


O mesmo se passou com os mergansos-grandes (Mergus merganser) que depressam voaram para outras paragens.


Por outro lado, o descanso imperturbável,  em cima de uma árvore o tetraz-lira (Tetrao tetrix) permanecia imóvel ignorando os nossos chamamentos.


Em cima dos pinheiros o chapim-montês (Poecile montanus) cantava as suas glórias


Foi de fugida que conseguimos observar a escrevedeira-amarela (Emberiza citrinella)


Em Kuusamo, os picoteiros (Bombycilla garrulus) surgiam em bandos irrequietos de volta dos tenros rebentos das árvores. Sem dúvida, foi uma das aves que mais gostei de observar.


O ataque do bando às árvores inocentes.


Pensativo - Um registo de um picoteiro solitário.


Por todo o lado, os tordos-zornais (Turdus pilaris) ocupavam todo o tipo de habitats, raramente vimos tordo-comum.


Os tordos-ruivos (Turdus iliacus) andavam misturados com os zornais e em grande número, por vezes aconteceu não saber quem era quem.




O olho-dourado (Bucephala clangula) faziam parte da paisagem alva mas não permitiram grandes aproximações.



Onde estará a coruja-do-nabal?


 No seu calmo vagar, este anfíbio atravessava a estrada, não havia trânsito que o amedrontasse, porém tivemos que tirar o bicho do meio da via, não fosse dar-se inicio a uma qualquer prova automobilística.


São 0:20 minutos em Kussamo e ainda há vestígios de um astro qualquer.




Por aqui gostava de escrever um romance policial sem um  assassino, sem uma gota de sangue, um casario abandonado, uma sombra suspeita, ou o sol da meia-noite, apenas com as famintas criaturas que se alimentam dos longos nevões de Kussamo. Por certo não saberia o que fazer com o dia que sobrava da noite branca,










Agradecimentos:


Família Frade.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Ferramentas para que te quero... Tool em Lisboa


Passados 13 anos vamos lá abrir a caixa das ferramentas para desconstruir umas ideias.
Um amigo disse-me uma vez " a música dos Tool não explode, está num constante crescendo, promete, promete, mas nunca rebenta a bolha". Perante tais palavras, sorri, compreendendo um certo desconforto musical. Aprendi com a vida que em determinadas ocasiões não se deve discutir, futebol, política ou gostos musicais e neste caso estávamos na antevéspera de concerto destes californianos em 2006.   Antes disso, em 2000, conheci a banda A Perfect Circle e o génio de Maynard,  um ano depois por intermédio de uma amiga fui iniciado nos ministérios dos Tool ao emprestar-me a discografia da banda. Realmente esta é uma daquelas bandas  que se ama ou então abandona-se ao esquecimento.  Inicialmente, o que mais cativou foi o som não se parecer com nada que conhecesse, até mesmo com os projectos paralelos do vocalista Maynard (A Perfect Circle, Puscifer).
Musicalmente as composições dos Tool vagueiam entre o do rock progressivo com alguns laivos de psicadelismo industrial ao apresentar momentos de extraordinária elaboração em contratempos e reviravoltas mecânicas como se grandes blocos de uma parede maciça se movessem numa cadência aleatória. Seque-se a componente de vídeo e visualmente somos confrontados com o imaginário de estranhos seres que habitam um sonho futurista e que nos levam a abrir estranhas entranhas multidimensionais.
Adjetivando à  bruta - no dia 2 de julho de 2019  assisti a um espetáculo inesquecível e quase místico, um ritual de contemplação sonora e visual. Foi um dos melhores concertos dos Tool que que tive o privilégio de presenciar e já lá vão 3.  Sentado numa cadeirinha, mas não durante muito tempo, porque mal o concerto começou, os que estavam resfaltados levantara-se para melhor assistirem e participarem à sua maneira no culto de ferramentas hipnóticas que por ali já devastava a plateia rendida. Os meus pés aguentaram um par de horas a marcar uma cadência rítmica e desafiante e não me queixo. Nunca!

Não vou dizer os Tool são  excelentes músicos, muito menos que o pavilhão estava à pinha com 20.000 almas, porque isso vocês já sabem. O que nunca tinha visto foi um intervalo cronometrado ao segundo num ecrã gigante para depois a banda voltar e anunciar a data de lançamento do seu novo trabalho. O concerto principiou com o tema Ænema seguindo-se The Pot, no meio foi-nos dado a conhecer Descending' e Invincible  dois temas do novo álbum a lançar a 30 de agosto, depois seguiram-se outros momentos da carreira dos Tool, terminando o ritual com duas picadas de agulhas analgésicas Vicarious e Stinkfist, tudo isto acompanhado por uma massagem sensorial com recurso a laser de hipnótica cadência.

Foi há 13 anos que vi os Tool pela última vez neste mesmo local. Todos estamos diferentes. A vida  moldou-nos com os seus enganos e sonhos desfeitos. Passado tanto tempo ainda sabemos o que nos faz falta -  momentos como este.

Agradeço ao Sr, Maynard e aos seus companheiros de ferramenteiros o momento proporcionado, tal como o facto de nos concederam o direito a fotografar com o telemóvel o último tema do concerto, coisa que de outra forma não teria sido possível...





Até à próxima Tool!



sexta-feira, 28 de junho de 2019

Corrida Solidária em Mira


No passado dia 22 de junho participei na Corrida Altice Solidária em Mira. Uma iniciativa organizada com intuito de fazer face às catástrofes naturais que assolaram a região, nomeadamente o furacão Leslie em 2018 e os (incompreensíveis) incêndios de 2017. Foram perto de duas mil pessoas que se juntaram a esta iniciativa. Durante a corrida, a população espreitava curiosa, enquanto os atletas davam o seu melhor pelos trilhos que contornavam a lagoa. Quem por ali correu ou caminhou foi muito bem recebido com palavras de incentivo e gestos de apoio das gentes de Mira.
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Assim se faz a vida, correr em torno de um ideal ou objectivo, contornando obstáculos e redobrando o fôlego. Caminhei cinco quilómetros em uma hora e dois minutos, também motivado pelos andarilhos mais experientes que em jeito marcha aceleraram em passada rápida. Foi uma iniciativa extarodinária e muito bem organizada, que me fez querer continuar participar outros desafios


Quando cheguei perto da lagoa tive que parar para observar tamanha beleza natural que agora traduzo em tons cinza.














E no final ainda tive direito a partilhar este momento com a grande Rosa Mota.


Eis a ajuda solidária que chegou aos alunos de Mira.





sexta-feira, 21 de junho de 2019

Vilar Perdizes e outras latitudes


E daqui do alto promontório Lusitano, avisto as Terras do Barroso, onde todos os pretextos para degustação dos prazeres da alma justificam a estadia.
Como se entrasse num portal multidimensional, a paisagem irrompe entre planaltos verdejantes e o silêncio do granito pintalgado por algum casario centenário. Ando por aqui na companhia de amigos, com o intuito remoto de fotografar algumas espécies que se escondem entre o acaso e a sorte. Como tal, fiz uma breve visita a mística aldeia Vilar de Perdizes, uma vila bem conservada e que soube aproveitar as oportunidades que a dualidade entre o divino e o profano lhe proporcionou. Por aqui, ficámos alojados na Casa da Laborada onde fomos muito bem recebidos, num misto de simpatia e hospitalidade que desde logo nos fez sentir de coração cheio. A casa do século XVIII encontra-se muito bem conservada de onde sobressai a sobriedade do requinte e bom gosto, suportado pelo traço da madeira, enriquecido pela pedra. Um dos aspectos que mais admirei foi a nascente de água cristalina que entre paredes nos transporta para os ecos da natureza. Foi fácil adormecer e acordar por estas terras de gente afável e generosa.
Depois de um apetitoso pequeno-almoço, percorremos trilhos e veredas e convivemos com os seus dignos representantes em paisagens que perduram na memória dos olhos e o que a luz faz deles.

Da nossa visita ao planalto da Mourela aqui ficam alguns instantes consentidos pelos céus.








Quanto à avifauna, umas das espécies que trazia na ideia era o picanço-de-dorso-ruivo (Lanius collurio). O bicho não foi muito colaborativo, muito embora surgissem várias vezes no alto cimeiro dos ramos, contudo nem sempre com a melhor luz ou posição (e alguma falta de engenho meu). Porém, valeu a pena observar a sua calma distante, tão teimoso quanto selvagem, o que nos leva pensar que nem tudo é simples ou garantido nestas coisas de sorte e momento. 







Observámos outra espécie emblemática por estas terras: a escrevedeira-amarela (Emberiza citrinela) com os seus tons de amarelo quente, e por breves momentos brindou-nos com um ar da sua graça solar.


O Bútio-comum  (Buteo buteo) ainda nos fez pensar se não seria outra ave de rapina, mas infelizmente não se confirmou as nossas esperanças.


O tartaranhão-azulado (Circus cyaneus) surgiu a voar baixinho, dando apenas hipótese para um registo de fim de tarde.



A petinha-dos-campos (Anthus campestres) estava muita atenta à nossa aproximação.


Em Tourém avistamos a andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestres) com os seus voos rápidos e imprevisíveis.




Ainda registámos a curiosidade dos sardões (Lacerta lepida) que saíam dos buracos para ver quem passava, entrando logo depois, como eu os compreendo.


Entre joaninhas, borboletas e gafanhotos, eis alguns insectos que animavam o micro cosmos floral.




A borboleta-nocturna Eurrhypis pollinalis compunha o espaço vazio até chegar ao dente-de-leão





A dada altura da nossa caminhada, surgiu um estranho zumbido, tememos que tivéssemos importunado um bicho "perigoso", todavia tratava-se do belo gafanhoto Arcyptera tornosi. 




Também me retive nos pormenores da flora arbustiva que irrompia da aridez do solo em tons vivos e desconcertantes.





Foram dois dias que voaram pela simplicidade dos sorrisos. Fica a recordação de um passeio extraordinário com biodiverdidade e paisagens singulares. Voltar quem sabe um dia... Aqui fica uma palavra de agradecimento e amizade para :

Arinto
Família Frade
Casa da Laborada





terça-feira, 28 de maio de 2019

Os últimos dias na Costa Rica 9º Episódio


Os últimos dias de férias na Costa Rica foram passados no Ojochal, um extraordinário local, repleto de biodiversidade e algumas tempestades tropicais.




Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...