terça-feira, 9 de abril de 2013

A lágrima e o lenço






uma reacção alérgica ao cloro da água faz-me chorar do olho esquerdo.

o olho direito continua feliz para além do desfoque do prisma quotidiano.

e assim, de lenço na mão, e sem motivo aparente não consigo parar de chorar;

com o vagar que demora a salgar uma simples lágrima,

pequenas gotas percorrem a metade do meu rosto que permanece na sombra;

na penumbra, sem contorno nem traço, na perfeita negação da matéria.

o outro lado de mim não vê porque não pode ver, porque nunca viu e nunca verá.

enquanto isso, o mundo diz-se mundo e existe
com todas as convulsões dos movimentos perpétuos e demais enganos.

existe redondo e de pólos achatados. nós habitamos visceralmente este pontinho azul.

dentro de uma bola de vidro com uma casinha pintada de branco onde caí ininterruptamente neve artificial.

do lado de fora do vidro, uma gota solitária anda perdida pelas margens da esfera.

para aliviar o ardor enxaguo a vista com o lenço mas o olho esquerdo continua a chorar. não percebo.

o meu lenço tem bordado uma casinha à beira mar, num azul imenso e com o sol a espreitar por entre as nuvens brancas.

será que quando choro vejo a perfeição?

se assim for, há dias que esta lágrima desenha no lenço de linho uma outra realidade.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

4 Estações sobre Monsanto no mundo dos fungos com o cogumelo Omphalotus olearius

Um cogumelo que brilha no escuro... Um cogumelo bioluminescente?

Há quem diga que se colocarmos este cogumelo no escuro a parte inferior do "chapéu" imite uma ligeira luminescência de tonalidade verde, devido a resíduos metabólicos na actividade fisiológica do micélio. De facto, reza a lenda de "Jack O'Lantern", que este cogumelo serviu de auxiliar luminoso aos exploradores americanos do século XIX, para que estes encontrassem o caminho de regresso aos seus acampamentos.  Factos: este grande cogumelo alaranjado (20cm) é tóxico, quando ingerido provoca vómitos, dores de estômago e diarreias. Sinceramente não sei se brilha no escuro, todavia, da próxima vez que encontrar esta espécie (Omphalotus olearius), irei fazer a experiência; quem sabe se não passarei a poupar na conta da luz?









terça-feira, 2 de abril de 2013

4 Estações sobre Monsanto no mundo dos Anfíbios com o Tritão-marmoreado (Triturus marmoratus)

Entre a terra e o charco, este girino de Tritão-marmoreado segue o seu caminho. E é aqui, em plena fase evolutiva, que podemos observar as brânquias externas deste dócil anfíbio.









Espertinho




Se eu pudesse escolher uma mentira. Chamava-te espertinho!

Esta gente pequenina (não em altura) e sem mundo (muito menos em viagens) enchem-me a cabeça e mordem-me os calcanhares com as suas sentenças.

Foi no dia 1 de Abril, dia das mentiras e de outros tantos factos irrefutáveis, que a gente pequenina mais uma vez fez das suas. Gritou, esperneou, ofendeu e depois não concedeu direito ao contraditório, muito menos à resposta ou diferença na opinião.

Essa gentinha motivou-me a ir para o mato e transformar-me num verdadeiro bichinho do mato. Onde o tempo corre de feição aos sonhadores. Na floresta esqueci-me que existe gente pequenina assim. E se algum dia no mato ficar caído, por certo os bichos que da minha carne fizerem refeição, serão bem diferentes dos que hoje fornicam-me a paciência.

Fim de desabafo, quando um mastim passou por aqui, sacudiu as pulgas, e com fronha sorridente pediu uma festa.



sexta-feira, 29 de março de 2013

Holocausto





um conflito ecoa nos patamares,
aproximo-me da porta e espreito pelo olho de boi 
certifico-me que a luz da escada está apagada;
se hoje houvesse uma guerra mundial eu não estava preparado,
já os meus vizinhos sobreviveriam e pelo barulho que fazem
imagino-os em casa, em saltos magníficos, aos pulos e cambalhotas,
de pernas para o ar, num doido trampolim do chão ao tecto, 
sem gravidade ou vergonha que os desminta de heróis.

os meus vizinhos são fortes

são os maiores candidatos a astronautas que conheço
colectores preparados para uma catástrofe,
eles guardam tesouros de conservas em lata 
vestem roupas dramáticas, 
e quando nos encontramos, por acaso, 
usam palavras tão fechadas das quais tenho medo do significado,
semanalmente acartam para casa sacos cheios de resistência
acredito que tenho vizinhos que não dormem;
por detrás das cortinas esperam pelo inicio do conflito de arma pronta e alvo identificado.

agora...

pelas escadas os cães ladram sedentos de rua, 
no rebate das portas ímpares as gatas miam num cio eléctrico,
à janela todos os meus vizinhos anunciam um fim qualquer.
um fim que não este.
um fim que nunca foi escrito;
todos estão em casa 
e secretamente esperam por alguma coisa. 


eu não estou preparado para o holocausto.
fecho o guarda-fatos e o armário onde colecciono restos 
dos amores em algodão-doce e outras fotografias que me são familiares.
escavo por entre a desarrumação e escondo o boletim das vacinas e o B.I,
guardo os meus preciosos pertences, aqueles que ainda estão agarrados à pele e doem.
tenho saudades dos dias longos e das noites frias dos corpos. 
não estou minimamente preparado, 
estou em fuga que é algo completamente diferente.
por isso, tenho o meu ritual de iniciação para quando o dia chegar,
não haver dúvidas que o dia chegou...

ligo o cronometro:


direcciono os sapatos de guerra com a biqueira virada para a parede,
coloco as calças em cima da cadeira e a camisa por cima das calças,
e os boxers em cima da camisa com as meias pretas ao lado.
tenho um casaco resistente à chuva pendurado num cabide
luvas de amianto em cima da cama,
um capacete de mineiro com uma luz no topo, ligada,
uma garrafa de oxigénio e outra com água mineral ao meu lado,
dezenas de barras de cereais com diferentes sabores,
uma velhinha espingarda de fulminantes e uma mochila, 
por fim, em torno do corpo, ato a bíblia e uma revista com senhoras ligeiramente despedidas
serve de fé como um colete à prova de bala e solidão.

não me esqueci; 
deixei em cima do frigorífico um envelope
com as contas que paguei e com as que ficaram por pagar.
tal como a contabilidade dos meus erros, 
está lá tudo escrito para depois ser mais fácil desculparem-me.
demorei 1 minuto e 57 segundos a preparar-me, não está mal.
ao mínimo sinal... visto-me e fujo.

calmamente, corro os estores para baixo e fecho a porta do quarto

silencio a luz do rádio que segreda baixinho na mesa de cabeceira
fico completamente às escuras, em mim,
manto apaziguador de uma calma mortalmente consentida.
descanso e espero que a consciência do mundo me apague.

mais tarde,
numa enorme agitação, acordo com gritos
só pode ser uma coisa: o dia chegou. o grande holocausto está aí,  
agarram-me pelos cabelos e pelas pernas,
fazem-me cócegas nos pés e beijam-me as faces rubras de sono 
e quando mais a primavera se anuncia auspiciosa maior é desilusão;
aqueles vizinhos, que vivem aqui e nem sequer sei o nome,
dizem-me com o maior desplante: parabéns!

segunda-feira, 18 de março de 2013

4 Estações sobre Monsanto no mundo do fungos com o cogumelo Tremella mesenterica

Tremella mesenterica

Com o início do outono e das primeiras chuvas, este pequeno cogumelo amarelo e não comestível surge nos troncos caídos das árvores de folha caduca.











domingo, 17 de março de 2013

Pontão





No verão, crianças bomba atiram-se do pontão com o estrondo, 
em brincadeiras de pele queimada e areal derramado pelo horizonte próximo;
são sempre poucos os mergulhos no desconhecido que desafiam o medo e a esperança!
no inverno, em fins de semana cinzentos, os pais regressam ao mesmo pontão, 
tiram medidas às sombras e descobrem sempre novos silêncios;
lentamente, hesitam nos passos e procuram no mesmo fio breve de sonho,
respostas que encham a boca e os olhos aos filhos. 
nestes dias, na mesa não se cala outra coisa senão o futuro,
sem que os pequenos os ouçam, eles perguntam-se num auto de fé:
para onde foste Portugal?

Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...