sábado, 21 de agosto de 2021

Máquina de parar o tempo


 


pelas mãos do meu Pai 

chegou aos meus olhos a primeira máquina de parar o tempo,

uma Agfa Sinette 1 de estojo elegante e manuseio gentil,

quem sabe, mecanismos secretos de uma dimensão por revelar.


capaz de 35 milímetros de paisagem ainda sem nome,

onde as sílabas reluziam numa ténue linha sonora,

entre casas brancas e postigos de rede salgada, 

agora que seguro na máquina e sinto a doce intimidação...


como um despertar de um espinho em saudade,

a chuva que teimava cair no rebate da nossa porta,

as gotas suspensas no estendal da roupa e aquele suspiro...

tanto que ficou por dizer, entre vendavais e fotogramas.








sábado, 7 de agosto de 2021

entre horizontes



olho para os locais onde não estás,

na conversa dos pinheiros e da sua sombra,

nos bancos improvisados de uma tarde longa,

na margem dos cafés e dos castelos de amigos,


na tua falta, sobrevivemos às feridas deste casco,

arrumamos gavetas com vozes dentro,

procuramos sinais soltos num bailado de uma vela.

num rascunho de uma noite que se espera desfocada.


antes de sair revejo-te espectral, sentado no sofá, 

oiço o eco de mil portas a abrir, 

e recordo o teu aviso: "boa viagem e com cuidado!"


sexta-feira, 30 de julho de 2021

Luz e melancolia




tenho que me pintar de melancolia,

para acalmar este raro impto matinal,

pois se ambiciono escrever uma linha de poesia,

bem humorado estou, tenho que me por mal!


solidão solidária, goela abaixo, venha de lá a tristeza,

sorumbático, amarfanhado de deprimido parecer, 

mais uns comprimidos aos quais só posso agradecer,

pois adormecem-me a mão de coerente incerteza.


se escrevo amargurado e nesta opaca figura,

alegre fico pela droga de doce candura,

ao amar um poema-fêmea que nunca comecei.




sábado, 3 de julho de 2021

Leitura: Coração Duplo de Marcel Schwob


Coração Duplo por Sérgio Guerreiro


A 31 de Maio - Quis o destino que acabasse a leitura destes contos num banco do Hospital de Cascais, numa consulta de urgência com a minha mãe. O nosso coração também habita noutros corações. A minha mãe saiu melhor dessa consulta e com a medicação reformulada. Os nossos olhos também descansam em outras mãos. Fomos para casa mais calmos, sabendo que por agora, algo poderia melhor. Haja esperança. O coração da minha mãe é maior que a caixa que o sustenta e isso é um problema com que temos que viver. Um coração duplo. Este livro estava lido mas não fechado.

Os 33 contos que completam o Coração Duplo de Marcel Schwob viajam pelos campos fantásticos da ficção-científica, do terror gótico, da guerra do amor sangrento, da amizade desfeita, com os estilhaços brutais das decisões dos seus intervenientes. Os danos colaterais da eterna batalha entre o bem e o mal dos actos tomados. Os estilhaços de vidro que se cravam na cara amplificadando um erro e recordando-o com uma cicatriz que brilha de dor. As areias movediças em que entramos cientes que nos vão enrolar, mas que também nos levarão a atravessar, ou não, para outra margem. O livre-arbítrio e o erro evidenciam a nossa condição de ser humano, como pecador e como benfeitor, capaz do melhor e do pior. Eu sei que tudo isto parece um lugar comum, contudo a realidade é uma ilha estranha.  

Deste excelente livro destaco os seguintes contos:


- A Máscara

- Um Esqueleto

- Terror Futuro

- Arrasa Corações

- O Hospital

- O Comboio 081

- Um Homem Duplo

- A Tamanca

- Flor de Cinco Pedras


No meio de uma pandemia que parece não querer dar tréguas nem sinais de abrandar, infelizmente deixei a leitura para trás. Nos tempos em que ia para o trabalho de transportes públicos, era sagrada aquela hora onde entrava no corpo de um livro, nem que fosse para me esconder da multidão. Em casa não sinto necessidade de me esconder, e quiçá distraído pelos ecrãs,  viajo pelas tecnologias e com isso leio menos. Mas é bom ter noção de que me falta tanto ler. E que há tantos livros que nunca me vão  passar pelos olhos, tivesse eu marcada para breve uma viagem à volta ao mundo de comboio, fechado numa cabina com uma chaise longue em veludo, rodeado por uma biblioteca, e a história seria outra ou talvez não. 


Próximas leituras:  A Peste de Albert Camus




sábado, 26 de junho de 2021

Incompleto

 



esta incompletude não me deixa só,

é como ter fome depois de provar todos os frutos,

insustentável secura, após sorver das fontes mágicas,

inacabado arrepio após desfeito o último prazer.


nada me contenta ou satisfaz,

desde os véus das fogueiras nas suas danças eróticas, 

ou as massagens nocturnas das plantas carnívoras,

passando pelos livros ou a música que detesto amar.


não me alegro com álcool ou capuchino açucarado de licor,

tampouco a migração das aves que me saem das mãos,

nem sequer as orquestras tecnológicas em que perco,

ou as orgias tácteis dos bichos de cama me animam.


mas sei que há um pontinho algures na finitude,

verbo por iluminar que me arrasta até à tua morada celeste,  

e todos  as manhãs a tua fotografia sorri,

enquanto o cacto que espreita à janela cresce sem se ver.






sábado, 22 de maio de 2021

Carpintaria





nada sei de carpintaria nem de reflorestação,

mas com as tuas ferramentas de esculpir a madeira;

umas quantas chaves de fendas e um formão,

escavei uma cova com dois dedos de diâmetro.


das mãos fiz plaina e aparei arestas de um abismo de bolso

e na terra plantei um pequeno pinheiro, 

que um dia terá nome de Guerreiro,

bem por cima da tua janela,


onde assistias ao minguar dos dias,

ao evoluir dos invernos,

um dia, meu Pai, esta sombra será nossa!





sexta-feira, 7 de maio de 2021

Caligrafia





Na perfeita caligrafia da pele, 

escorre uma gota de flor em lágrima,

soltando aromas rosa de primavera cansada,

melodia das tuas letrinhas vegetais

em curvas delineadas com mestria

de quem amealha o pão com medo da falta.

 

Mãe quando escreves o teu nome no meu rosto, 

sou pétala ao vento nos teus olhos de seara.

 

Insatisfeito

Falta-me não sei quê para ter não sei quanto não sei como ou quando posso estar completo   tenho tanto que não me chega o intento   não me f...