terça-feira, 13 de junho de 2023

Pazada

 

oiço a pá a rasgar o saibro;

som cheio, arenoso,

sincopado e nervoso

ritmo quase fúnebre.


ao lado, o canto harmonioso

da trepadeira ao subir a árvore,

ave de cabeça para baixo e bico agulha,

minuciosa cata insecto e costura

 

o bichinho penado assiste ao trabalhador,

obra ao sol sem feriado ou clemência,

a ferir a terra que o pariu.

terça-feira, 6 de junho de 2023

O incansável cansaço



São corredores infindáveis

para chegar às batas brancas,

que nos alinham em nuvens de fé,

num telegráfico e ambicioso receituário.


- o médico disse que as análises estavam boas...

 

o passo faz-se curto pelo chão gasto dos hospitais,

Tu minha Mãe cada vez mais cansada do depois,

sempre que sobes os degraus do nosso canto

e repousas no sofá à espera do fôlego sem hora,

 

- a nossa rua é a mais bela mas a nossa árvore tem pouca folha.

 

Tu minha Mãe - mulher única e triunfal!

quando o meu mundo é a ciência do teu sorriso,

ficarás sempre nestes dias por preencher.


 

segunda-feira, 10 de abril de 2023

O murmúrio da baleia-corcunda e os peixes coloridos.

 



Depois de saírmos da Isla de la Plata, o barco parou para observarmos tartarugas e os peixes coloridos que se aproximavam da embarcação na expectativa de comida. Quando a máquina entrou dentro de água e começou a filmar os peixes de volta dos pedaços de pão, captou o som da baleia-corcunda, num ecoar distante  deste magnífico cetáceo, nas profundezas do oceano Pacífico. Foi assim no Equador.








domingo, 9 de abril de 2023

Aranha saltadora Evarcha jucunda

Para mim, é sempre proveitoso apanhar vento na cara depois de nos anestesiarem a boca. Na vinda do dentista decidi visitar uma ribeira em Carcavelos para espairecer e observar a chegada da primavera por estas paragens. Aproveitei para caminhar e para pensar em tudo menos em dores, seringas e doenças. Observei a ressurgimento das flores e as cores que embelezam os poucos locais que não foram ceifados como medida preventiva dos incêndios. Aqui em Carcavelos não há muito para arder mas há muita construção que dizima as poucas zonas de vegetação silvestre. Reparei nas flores primaveris e entre elas a erva-da-inveja ou as pervincas (Vinca difformis) que se distribuíam abundamente junto à sombra da ribeira. 

Agachei-me para tirar uma fotografia e algo saltou. De mais perto constatei que era uma pequena aranha saltadora. Tentei um registo com com o telemóvel mas o bicho voltou a pular e desapareceu no meio das ervas. Quando mexi o pé reparei noutra aranha saltadora mais escura que sem medo fitou-me com os seus oito olhos. Arrisquei mais uma foto que ficou uma desgraça. Levantei-me e deixei no local um pauzinho a marcar o sítio da observação. No outro dia de manhã, antes de ir trabalhar, dirigi-me ao local; já sem anestesia e com força e vontade renovadas. Com a minha máquina fotográfica e uma lente de macro estava preparado para arriscar a sorte. E lá estava o macho não muito longe do local inicial onde o tinha encontrado. O bicho estava calmo e só ergueu uma pata quando afastei suavemente uma ervinha que estava à frente do foco. Afastei-me e montei o tripé junto ao chão para depois fotografar a aranha-saltadora (Evarcha jucunda), esquecendo-me das dores que renovavam estes dias de abril. A aranha saltou para detrás das ervas-da-inveja, onde estava outra aranha escondida. O meu tempo tinha passado, entendi o sinal  e arranquei dali para fora, esquecendo por momentos, as dores monetárias e físicas de cada ida ao dentista.












 

sexta-feira, 7 de abril de 2023

A sala


na tua sala repousa 

uma asa caída de todos nós,

já a janela virada a norte, 

espera que te voltes a debruçar

em busca das escamas de sol.

 

a corrente de ar matinal 

anima as fotografias insolúveis 

ao pó do tempo;

esta sala de luz forte em tijoleira vermelha,

foi o altar da mulher que ainda te ama,

ao lavar-te os pés, fizesse fé ou falta.

 

por esta dimensão...

escasseiam manhãs simples,

em que as sopas de café 

abriam o apetite

da porta da rua...

 

roda viva.





quarta-feira, 22 de março de 2023

Domingo magro

 




um homem cai num jardim cheio de domingo,

ninguém repara, a felicidade estoura balões,

as crianças riem, os pais seguram o sol, 

cicatrizando medos na pele familiar.

 

o homem levanta-se com a dignidade solitária

de quem não se importa com as calças mictadas

ou com a fome que lhe seca a casca do corpo,

sorri, procura a sombra entre pinheiros. 

 

o domingo está prestes a findar, 

as crianças desaparecem com os progenitores 

engolidos nas filas de carros que falam sozinhos,

familias recolhem exaustas às colmeias.

 

o homem de calças com manchas de urina

e camisa com nódoas de sangue ou vinho,

não deixa o domingo eclipsar-se nem o jardim fechar,

sem antes esquecer-se de um qualquer poema;

 

numa noite a fazer-se de abrigo.


domingo, 19 de março de 2023

Carpintaria da memória





Na carpintaria viajante da memória

sinto o perfume da serradura recente,

repito os nomes das ferramentas afiadas

tento a curva de uma letra com lascas de pinho. 


Hoje, com óleo de linhaça, dei brilho aos móveis,

tuas árvores, meu Pai, das quais deste nome e forma,

não tendo o teu engenho para edificar obra,

observo a plaina a manusear silêncios,

nas nuvens suspensas com cola de madeira.




 

Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...