sexta-feira, 2 de abril de 2021

Orquídeas, aves e caminhadas

 

Minha doce vila de Carcavelos e a sua biodiversidade 

Numa das minhas recentes caminhadas encontrei, próximo da praia de Carcavelos, esta orquídea silvestre (Anacamptis pyramidalis), contudo como não tinha máquina fotográfica, decidi voltar ao local com o mesmo pretexto de caminhar, mas  desta vez, aproveitar para fotografar esta bela planta herbácea. Assim foi, fiz 6 quilómetros e depois das fotografias aproveitei para ingerir algumas calorias, deliciando-me com um gelado de manga e maracujá na geladaria Santini. Em tempos de pandemia, e como tinha que tirar a máscara, salvaguardando o devido ao distanciamento social, escondi-me num dos jardins próximos a degustar o doce manjar. Sozinho, emaranhado nos meus pensamentos, mais ainda, de volta do gelado que entretanto derretia-se para cima dos dedos, urgia terminar tamanha gulodice. Todavia, qual não foi o meu espanto, quando um tordo aproveitou para fazer o mesmo a escassos metros de mim, só que no caso da ave, deliciava-se com uma enorme minhoca. Depois apareceu um melro apavorado e um casal de pombos-torcazes enamorados que quase poisaram num banco ao meu lado. Registei alguns momentos dos bichos e dos seus comportamentos, a dada altura a máquina fotográfica também provou o sabor tropical do gelado e a minha inépcia para separar amores veio ao de cima. Não por muito tempo. Os pombos fugiram quando um cão esgrouviado e o seu dono com a cabeça dentro de um smartphone apoderaram-se da acalmia do jardim que me enchia a alma e os dedos de coisas doces. Fui para casa com nódoas na camisa e com o cone de baunilha no canto da boca.















sexta-feira, 26 de março de 2021

Um breve caminhada pela Quinta do Pisão

Caminhar, apanhar ar e vento é meio sustento.

Com o intuito de fazer uma caminhada em contacto com a natureza fomos até à Quinta do Pisão. Sempre salvaguardando o distanciamento de segurança e usando a máscara, tentando mesmo assim respirar ar puro em comunhão com o ambiente bucólico verdejante. Posso dizer que o objectivo foi alcançado. Desenferrujei as pernas, encontrei velhas amizades, limpei a vista com as cores quase primaveris da paisagem. No total, foram 5 quilómetros num ritmo calmo e com algumas paragens para descansar ao mesmo tempo que observava a biodiversidade. Numa desses intervalos, fui alertado por amigos, para um casal de dom-fafe que andava entretido a voar de árvore em árvore.

O macho não permitiu grandes aproximações, surgindo aqui fotografado após uma curta aparição, minimamente isolado do interior intricada ramagem, e após edição de sombras indesejadas.

 A fêmea, apelidada carinhosamente por mim de "Dona Fafina", espreitava do seu altaneiro postigo, a chegada dos caminhantes.

Mais ao longe, o macho não permitiu grandes aproximações, surgindo aqui fotografado após uma curta aparição, minimamente isolado do interior intricada ramagem, e após edição de sombras indesejadas.

No regresso, fui surpreendido por um insecto que não esperava encontrar por estas paragens; Em voos irregulares e não demorando muito num determinado poiso a borboleta-carnaval (Zerynthia rumina) alegrava os meus olhos com as suas cores hipnotizantes.  



Trata-se de uma borboleta que pode atingir os cinco centímetros de envergadura e infelizmente o seu estado de conservação é de "ameaçado"  









Como foi bom voltar ao contacto com aquilo que nos faz sentir bem! 

sexta-feira, 5 de março de 2021

aqui ao lado - aos meus vizinhos

 





de mansinho,

o vírus subiu escadas, entrou pela porta disfarçado, 

e sentou-se à mesa com os meus queridos vizinhos,

durante 3 meses corroeu 

e arrastou com ele, os rostos e as vozes daqueles que durante anos, 

trabalharam dores para pagar escadas de sol e a casa branca,

que cá ficou, aqui ao lado, onde o bicho enlutou.

restam as cores das tardes saudosas em que dizíamos:

até amanhã.








domingo, 28 de fevereiro de 2021

Prisão domiciliária





A  prisão domiciliária é interrompida...

pelas idas ao caixote do lixo, às farmácias, ao supermercado,

e aos testes do bicho dos aerossóis:

de quando em vez lá saímos,

como astronautas na nossa própria cápsula. 


No exterior, evitamos falar com quem quer que seja,

serve o aceno à distância para esvaziar o vazio da saudação,

seguramente estimamos o mínimo de 2 metros mal medidos: 

fazemos parte integrante do sonambulismo que nos estimula,

numa marcha carnavalesca para uma fila de qualquer coisa.


Já nos esquecemos de como é admirar um rosto incógnito imperfeitamente belo.


Os pássaros pousam nas antenas, 

os cães conduzem donos balofos de fato de treino amarrotado,

enquanto eu combato o embaciamento do vidro da janela com o nariz.

assisto a um gato a levar pela boca uma máscara usada.

não estranho a noite ser um dia em branco.


Lá fora, no exterior, as máscaras abandonadas

animam-se com o vento solitário.

As folhas mortas não se queixam da pandemia,

e perguntam às tapa-ventas cirúrgicas se querem dançar

desconjuntadamente. 


Afocinho em teletrabalho no meio de dois monitores assimétricos 

O meu pai abre a porta do quarto e pergunta-me:

- Quantos morreram hoje?

está entusiasmado por ter testado negativo ao covid 19,

não esquecer que venceu a zaragatoa sem se queixar,

e por isso exibe o seus 84 anos como troféu destemido,

o meu pai está zangado com este longo inverno

e com os amuos prolongados de um sol qualquer.



domingo, 31 de janeiro de 2021

não mais um dia como este

 



como se descarrilassem comboios, 

afundassem cacilheiros,

desnorteassem aeroportos inteiros, 

assim morremos um pouco mais,

neste horto de números anónimos,

que deixa enlutado um país,

ajoelhado,

a chorar a perda dos seus filhos,

para um mal,

que grassa entre o intervalo dos aerossóis e o contacto,

num ceifar de vidas constante.


depois de me apagar,

espero pelo retorno da mensagem que a ave difundiu, 

entre a antena e vasto cinzento diário.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O Senhor Fado

Houve um dia que uma voz me chamou

para junto de um circulo imaginário

de putos como eu, seduzidos

pela fogueira remanescente da luz e aplauso.


De birra feita não fui. 

Intimidado pelos olhares tranquei o beiço,

e contemplei ao longe aquele senhor mais alto que as outras cabeças,

de microfone na mão, a encantar uma plateia rendida 

da sociedade recreativa da Rebelva.


Depois de desarmar a teimosia vim a saber que era o Senhor Fado,

dono da voz que embalava as agruras de uma nação,

de canto firme e ao mesmo tempo capaz 

de esculpir paisagens sonoras intemporais.


Foi a primeira que assisti a um concerto,

recordo o Senhor Fado a cantar no meio de uma roda de putos,

num circulo luminoso onde crepitava a melódica poética;

hoje o frio é mais frio e a fogueira rasa os nossos olhos 

mas não se apagou o lume do fado muito menos a sua voz. 


Para o Senhor Carlos do Carmo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Se um dia a rede cair

 



táctil é o nosso desengano solitário,

na ânsia de consumir a fuga do tempo

vertemos o mundo na unha digital, 

cegos pela luz azul que nos acabrunha. 


caminhamos de palas, 

dentro de ecrãs sonegamos afectos,

rápidos, instantâneos, fantoches,

imitação sofrível de um resquício humano

que se agiganta num frágil tubo de ensaio.


Ah se um dia a rede cair...

quais toupeiras humanas,

à cabeçada na porta dos hospitais,

bibliotecas, museus, matrinidades,

cemitérios, esquadras, pardilheiros, bordeis.

 

tal não será o pãnico mastrubatório em espiral,

na esperança que um android vítreo

nos devolva da senha da rede perdida,

num célere encefálico despropósito, indesculpável.


até lá que me mordam os dedos 

e me destapem o pensamento.


Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...