quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Guarda-rios




Para Carlos Rio:

Dizem que naquele dia roubaram o sol;
a chuva era uma sílaba que se desejava de rápido sabor
do rio até às nuvens estendia-se uma escadaria de degraus infinitos,
quando uma flecha de azul celeste cruzou o estuário das almas,
e da infértil terra de cemitério nasceram flores
que ainda hoje voam.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sisão / The Little Bustard / (Tetrax tetrax)

No Alentejo, quando se sai da cidade Pax-Julia,
virando à direita, em direcção dos vinhais de Vitigeria,
há um ponto de coordenadas mágicas;
uma janela dimensional suspensa entre duas árvores de sobro
que mudam de lugar todas as noites:
audazes daqueles que a descobrem e fazem o tempo parar.

Nesse instante,
a voz do vento e da mulher despida de paisagem disse-me para ficar:
“só mais um segundo, por mais ínfimo que seja,
apenas mais um segundo, só meu e das coisas só nossas
não é pedir muito, pois não?”

Antes de desfazer as asas brilhantes de película binária que me trouxeram até aqui
contemplo o cosmos que trago na ponto dos dedos,
imagino que no topo dos sobreiros possam existir cidades tão pequenas
que fazem inveja às cidades inimagináveis do que nunca fui.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Monólogo da Espera editado na Revista-me

 

Na terceira edição da excelente revista Revista-me podem ler o meu conto, O Monólogo da Espera, adaptado para teatro o ano passado no Café Poema. Agora em formato digital e de fácil leitura aqui




quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sisão

No cume da planície Alentejana,
há quem diga;
que o sol é um ilhéu em pleno naufrágio
e a lua, uma mulher que dança no pião e na malha do tempo

Há também quem conte;
que nos braços das ilhas do Alqueva existem pontes imaginárias,
onde os homens ainda não descobriram a cor nem o sal das lágrimas,
e o brilho do terço das viúvas tem o encanto de rejuvenescer as almas

Na beleza única das rugas do delta além Tejo
há quem cante a Deus por estas e outras vinhas,
num corpo de árvore feito alto madrugar
e tudo mais vive sem que se dê conta.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Rã-verde

Por uma questão de honra anfíbia:
nunca ficamos no parapeito da janela mais do que dez minutos,
sorvemos as novidades dos desorientados insectos mensageiros
e submergimos logo a seguir nos ecos verdes que se propagam na água;
às vezes somos tentados a sair para outro reposteiro mais soalheiro,
mas não é mesma coisa, nada se compara com o nosso charco.
por isso, fazemos fé nos pulos que o mundo dá para não saltar daqui para fora.

domingo, 4 de setembro de 2011

Andorinha-das-chaminés

A rapidez com que dizes primavera
é a mesma com que cortas as correntes de ar,
e as flores deixam de ser flores e passam a ser perfume,
quando o azul nasce todos os dias no caule do sol,
com a mesma rapidez com que dizes Setembro.

Chapim-azul

De cabeça para baixo tu dizias que:
o mundo estava de pernas para o ar.
eu concordava; na expectativa de te ver desenhar uma cambalhota acrobática,
roendo-me de inveja pelo teu malabarismo que conferia aos optimistas
uma outra visão, só ao alcance daqueles que buscam o cume da fragilidade
transformando-a na maior das virtudes: um canto de esperança.

Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...