de volta ao epicentro da mais bela flor
os anos passaram pela Ribeira e pela juventude dos seus habitantes
num caudal de águas sempre renovadas e hortas penteadas de verde
as treze (13) pessoas que lá vivem
já não são as mesmas, são outras
talvez mais belas, talvez mais transparentes,
de gestos curtos e sorrisos contidos
saudamo-nos como se estivéssemos a jogar àquele velho jogo
( passa ao outro e não ao mesmo )
assim é a crueldade assimétrica dos verdes anos
sempre que cordialmente dizemos
eh pá... estás na mesma!
mas não é bem assim,
o tempo passa e faz os seus estragos
por isso é inevitável que deixe cicatrizes à passagem.
voltando à Ribeira,
as poucas casas que ainda respiram
já não são casas, apenas magníficos estilhaços ornamentais
suportados pelas paredes que teimam em não cair
erguidas no cimo de um vale de pinheiros altos
( tão altos, como se eu estivesse a observá-los do cimo
e tudo me parece-se belo e frágil, em miniatura de recorte indizível )
fazendo-me lembrar os anos em que brincava na fonte
a fonte, que já não é fonte, apenas silvas e mato rebelde
( ervas convencidas que não ardem )
onde escarafuncham bichos camuflados de noite
( convencidos que não são bichos )
quando era menino
brincava com as rãs e com as salamandras no tanque do qual se fazia rega
o tanque, já não é tanque, foi engolido pelos eucaliptos e pela cauda do esquecimento
às vezes é preferível seguir e não olhar, continuar como se nada fosse
nisto, de tanto caminhar para longe,
pareceu-me ouvir a voz dos meus Avós
( chamamento brilhante )
no assobio da brisa do fim da tarde
vindo lá do fundo das acácias onde uma mancha verdejante
permanecia intocável pela saudade dos abraços
e lá fui
como quem desce os Casais e se aproxima da Ribeira
sempre a descer por uma estrada de gravilha em vertigem
( é tudo sempre a descer )
aos meus pés,
as cobras que por atropelamento vinham morrer junto à estrada,
avisaram-me que o caminho não era por ali.