segunda-feira, 2 de março de 2026

Uma noite com as borbolets nocturnas do Quênia

 

Não foram muitas as noites em que saí para observar os insectos nocturnos do Quênia. Houve, no entanto, uma noite em que o cansaço não me chamava para a cama e decidi, antes de ir tomar banho, percorrer os caminhos do lodge. Isto porque um amigo tinha-me alertado para uma grande borboleta que estava pousada numa cabine desabitada. Eram 21:00 e os elefantes movimentavam-se do outro lado do rio, marcando o ritmo do coração de África. Os ecos dos lamentos dos leões pareciam aproximar-se como as insónias. Será que os predadores chegariam a atravessar o rio até às casas do alojamento turístico? Pouco provável. O bafo da noite colava-se à pele, tal como os insectos eram atraídos pela luz das coisas artificiais. Por entre arbustos, paredes e candeeiros, encontrei um micro mundo de antenas que sobrevivem de forma corajosa aos desafios da noite. Borboletas, moscas, mosquitos e louva-a-Deus que me guardem. 

























domingo, 22 de fevereiro de 2026

as mais belas flores não precisam de raízes

 



a brisa escupia o ondular vegetal do cabelo,

olhei uma vez e parecia que um cavalo-marinho levitava,

quando olhei a segunda vez, a vaga de um sorriso

hipnótico e tangivel fez sombra ao sol.


fêmea, como as janelas abertas na madrugada,

a flor de anjo deixava cartas nas casas marítimas,

tentei chamar a sua atenção, mas...

ela continuou fiel ao seu trabalho de existir um pouco menos.


as mais belas flores não precisam de raízes,

nem os animais inventados precisam de sangue para amar.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A praia do meu umbigo



na praia do meu umbigo,
os navios longínquos eram miniaturas,
brinquedos quebrados de tanto fazer de conta, 
nas horas em que não molhavamos os pés.

creio que as ondas de vidro sempre existiram,
agarradas às algas e às impiedosas rochas verdes,
a espuma da maré fez parte do cenário de sempre, 
preso ao areal do teu cabelo e à salmoura do olhar.

em loop constante,
o tempo esculpiu os ossos desta praia, 
calcorreada pelos dinossauros 
porta-chaves a um Deus descalço.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

e a morte?

 


cego, sais de dentro de um buraco, nu,

só vieste cá buscar um fato

e desta porta para dentro 

não levas mais do que cinza 

terra e arrependimento

no regresso vais vestido de preto

e de olhos lacrados.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A respiração dos electrodomésticos

 


da voz do teu velho rádio 

ainda oiço suspiros, 

relatos desportivos,

golos num fim de tarde, 

meu eterno Pai.

 

as impressões digitais no ecrã 

num tátil monitor social,

tablet que te fazia sorrir,

com os netos dos outros

aqueles filhos que não te dei,

meu céu de Mãe.

 

hoje voltei a ligar todos os vossos aparelhos,

na esperança que as ondas da electónica estática 

animassem o espelho vazio.


Uma noite com as borbolets nocturnas do Quênia

  Não foram muitas as noites em que saí para observar os insectos nocturnos do Quênia. Houve, no entanto, uma noite em que o cansaço não me ...