Mãe, agora que me faltas,
respiro numa busca espontânea
a tua ausência de cristal
quando resistias na leveza de uma pétala.
Procuro-te nas nossas rotinas, naquela ida às compras,
nos corredores abandonados do supermercado,
no assento esquerdo do carro,
nas tuas boas noites que me serviam de ansiolítico.
Também no linguajar das correntes de ar e nos sinos de vento,
nas praias onde me ensinaste a construir sonhos de areia,
no teu quarto onde está o pote com as tuas cinzas,
tapado com a tua mantinha preferida de ninho.
Na tua janela que continua com o estore a meio,
para que vejas o espreguiçar dos ramos verdes,
do canto dos pássaros cá de casa e na luz...
que no fim da tarde alimenta os poros da porta.
Ou nos sensores de movimento que acendem luares,
quando passo à tua procura entre a membrana das paredes,
uma casa tão vazia que se estende em deserto
ou nas tuas fotografias que ganham raízes nas minhas artérias.