sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Uma experiência de hidrohide

É sempre bom voltar aos locais que nos fazem sentir bem.  Foi com esse pensamento que saudámos o reencontro com o Alfonso da NaturAlqueva. Desta vez levámos mais um amigo connosco para se iniciar nestas lides de fotografar a partir de um hidrohide. Enquanto experiência fotográfica é algo que recomendo; pois torna-se visualmente gratificante a composição fotográfica tendo como ponto de partida a água e a aproximação aos bichos que com ela interagem. Temos ainda os reflexos que podem conferir uma dimensão diferente à imagem e se a isso juntarmos e os tons quentes da paisagem, poderemos obter alguns fundos com um nível de desfoque interessante.

Mas voltemos à nossa experiência. Passavam poucos minutos das cinco da tarde e os 44º convidavam a estar dentro de água e foi isso que fizemos. Mal chegámos não perdemos tempo, vestimos os fatos de mergulho e entrámos no pequeno lago conduzindo os hidrohides. Esta charca era do tamanho de um campo de futsal, tendo a particularidade de ser habitada por umas criaturas anfíbias, semelhantes a girinos, que nos beliscavam inofensivamente. Com água pela cintura, conduzimos o nosso abrigo, ambientando-nos ao local, desenhando a nossa procura pelas margens e foi aí que a acção se desenrolou. Não tivemos que esperar muito. Passados alguns instantes surgiram as primeiras aves a investigar a segurança das redondezas. As cotovias abriram as hostilidades e logo após bebericarem, esponjaram-se de bico aberto para suportaram tamanha canícula. Depois, na imensidão desértica das estepes, surgiram longos pescoços com cabeças tipo periscópio, assim se apresentava a graciosidade desconfiada das abetardas. Aproximaram-se com cautela, supostamente receosas das estruturas que nos serviam de esconderijo, mas a sede era tamanha que elas não resistiram àquele oásis. Estávamos completamente rendidos à beleza das abetardas, pessoalmente nunca tinha estado tão perto da ave mais pesada da Europa. A alta temperatura não dava tréguas e com avançar da tarde anteciparam-se outras surpresas. Perfeitamente camuflados pela paisagem, um casal de cortiçóis assomou-se lentamente da água. Tentei um ângulo mais favorável para registar o momento em que a gota ficou suspensa entre a sede e a paisagem e tive sorte. Entretanto, com o passar do tempo, a pequena charca enchia-se de bichos sedentos em torno do bebedouro comunitário. Quando menos se esperava, engalanado pela solenidade do mistério, apresentou-se o senhor alcaravão com os seus olhos vidrados num outro astro. O chegar da noite deixou o horizonte suspenso pelo arrebol e o adejar das criaturas esvoaçantes. Quanto a nós, comuns mortais armados em anfíbios coleccionadores de memórias, saímos da água a sorrir, felizes com o que fizemos do tempo.

Voltar & Volver!

Aqui ficam algumas fotos da nossa tarde no Oasis del Secano. 

Um casal de cortiçóis (Pterocles orientalis) avançava com cautela em direcção à água para saciarem a sede.










Depois veio o senhor mistérioso alcaravão (Burhinus oedicnemus), primeiro inspeccionou e depois bebeu.






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A pesada graciosidade das abetardas (Otis tarda) quase se fundia com a paisagem.





Prestes a tropeçar nas suas patas - o equilibrista pernilongo (Himantopus himantopus).



Maçarico-bique-bique (Tringa ochropus) tenta um malabarismo de uma só perna.


 O perna-verde (Tringa nebularia) decidiu molhar as patas e fez ele senão bem...


O pequeno borrelho-pequeno-de-coleira (Charadrius dubius) em passada militar. 


Surpreendida a menina cotovia-de-poupa (Galerida cristata)


O homem a tentar focar.


eram 3 hidrohides... onde está o outro?



Ali vai a vergonha do sol e a sua jura de amanhã acordar.



Uma panorâmica de um momento feliz.
























Agradecimentos:

Naturalqueva


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Costa Rica - Os macacos uivadores - 5º Episódio


Neste episódio encontrámos os macacos-uivadores e coloridas aves que foram fazendo os nossos dias pelas imprevisíveis estradas da Costa Rica.

António Lobo Antunes

Na sua boca as palavras tinham outro sabor. As pausas, os silêncios, conferiam um significado às sombras que deslizavam nas conversas. Dava ...