Aquela caneta era uma arma. em tempos foi o utensílio perfeito para cortar uma das veias primordiais. hoje esta caneta bic é o leme do meu diário de bordo. não mais tentei acabar com tudo e como estou melhor deixaram-me ficar com ela. assim, todas as semanas escrevo uma carta que coloco dentro de um envelope em cima do tabuleiro onde é servido o jantar. os homens estranhos, disformes de uniforme cinzento, recolhem o tabuleiro juntamente com os pratos vazios e o envelope. dias mais tarde recebo a mesma carta com o carimbo da repartição correios.
(bic laranja)
Ao ler as cartas que escrevo não consigo evitar a minha revolta pelo que passei. abro o envelope e amasso a carta para a projectar contra o crucifixo torto que enfeita a parede do quarto. o crucifixo ligeiramente descaído não reclama, apenas ouve e compreende a minha fúria momentânea. desconheço porque me escrevo semanalmente sobre tempo, os mortos, os amores, as horas das almas e as dores. talvez tenha medo que me roubem a memória. em tempos, quando a raiva falava mais alto, gritava tanto que os homens estranhos injectavam-me para depois inspeccionarem o meu corpo. despiam-me, revistavam-me e abriam-me a boca, como se fazia aos cães, obrigando-me a engolir uma cápsula que sabia tão mal. mais tarde era conduzido até ao tanque onde uma mangueira cuspia água fria e ameaças. ficava mais calmo, tão calmo quase inerte, sem oferecer resistência. acordava de manhã ao lado da cama, com frio, e contemplava durante horas a caneta bic em cima do maço de folhas em branco.
(bic laranja de escrita fina)
Recebo muitas cartas (as minhas) e poucas visitas (dos outros). sinceramente não me recordo de ter recebido um único amigo desde que estou aqui. mas não me posso esquecer das incursões dos homens estranhos, quando à bofetada me obrigavam a comer com talheres de plástico, quando me mudavam a roupa da cama e o pijama e me deixavam nu no corredor, quando colavam ao pulso, com cola de madeira, a pulseira com o meu nome, quando me davam banho no tanque e atiravam-me com grampos de metal nas costas e nas partes baixas, quando me obrigavam a mijar para dentro de uma garrafa de leite quer me apetecesse ou não. e no final de tudo isto, massacravam-me com perguntas para as quais não tinha resposta, convidando-me a beber um copo de leite morno antes de deitar.
(bic cristal de escrita normal)
Fiquei contente quando soube que estava quase livre. por isso resolvi escrever uma última carta. contudo, a morada seria outra, a rua e o número da porta um sonho que uma vez habitei. uma semana volvida tinha à minha espera um táxi que me levaria a casa. quando cheguei, lá estava a carta que tinha enviado. reli o manuscrito em silêncio, depois retirei os quadros da parede da sala. com fita-cola colei a carta bem no centro da parede, como se fosse um mandamento de um homem novo. antes de me fechar, parti a caneta bic com a qual fiz uma nova cruz e não mais me escrevi.