quinta-feira, 7 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Poema talvez não tanto. No passado dia 5 de Maio arranjei uma maneira para comemorar  o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa! 

rabo-de-fogo

abriam-se janelas de nuvens pardas,
ao céu envidraçado deste confinamento,
no parapeito manchado de espera,   
seguia aquele adejar de contentamento. 

um rabo-de-fogo emplumado             
feito pássaro negro-cinza dos infernos,
bicho de tiques modernos,
irrequieto e de fogo de pena arruivada,
brincava de poiso em poiso
em cabriolas de cauda empinada.

de cantar estranho quase alienígena,
como quem desfaz esferovite com a mão
alegrava deste a primeira à última manhã,
este pequeno quarto de cabeça coração.

o bicho queria lá saber do outro bicho pandémico
o que ele almejava era papo cheio, pouso altaneiro
e brio na asa;
enquanto eu contava entre a cova dos dedos,
as árvores que me faltavam abraçar.

ele esfarelava, esfarelava a esperança, 
urgentemente nervosa do desconfinar.




05|05|2020





segunda-feira, 20 de abril de 2020

Orquídeas, cogumelos, musgos e líquenes 2020



Ainda não tinha sido decretado o estado emergência e o respectivo isolamento social, quando em duas caminhadas descontraídas realizei estas fotografias.

 Longe de mim imaginar que seriam memórias da celebração do bem-querer ao próximo. Tempos em que podíamos caminhar lado a lado com outras pessoas sem risco de contágio, onde era possível cumprimentar com um simples aperto-de-mão sem comprometer a saúde, partilhar um  abraço ou beijar. Hoje, todas estas manifestações de proximidade para com o outro, não passam de miragens de afectos das quais temos que reinventar gestos e amplificar palavras. Olho pela janela, as ruas estão desertas, as lojas fechadas e não há nenhum rasto de avião nos céus. Assistimos a um filme com traços apocalípticos onde somos actores de uma sociedade expectante, à espera de uma vacina que não nos faça desconfiar do outro. Até lá, assistimos a banalização com que se fala de milhares de mortos,  abrindo noticiários com uma descontraída e terrível conformação,

Há uns dias atrás, quando andei pelos campos a fazer estas fotografias, não me passava pela cabeça, que hoje tínhamos que usar máscara, luvas, ou aguardar numa fila mais de uma hora para entrar num supermercado ou numa farmácia. Não imaginava que estava em teletrabalho, a realizar os meus turnos de 24 horas e que transformava o meu quarto num escritório, onde o meu patrão senta-se ao meu lado numa cadeira virtual. É assim que sobrevivemos. Não saímos de casa com medo de um bafo invisível e a nossa janela é a montra do nosso desalento, mas também a vigília da  nossa esperança.

Quando  o covid-19 alastrou pelo mundo o homem não teve outro remédio senão fechar-se numa quadricula quase distópica e partilhar cada vez mais os seus dados pessoais com um estado de alerta. Tivemos que alterar comportamentos, cambiámos a forma de exprimir os nossos afectos e criámos distâncias indivisíveis, talvez nunca mais voltaremos ao "animal" social que éramos, contudo a natureza permanece no mesmo quintal, à nossa espera, exigindo o nosso respeito, tão apaixonadamente bela mas como tudo o que amamos, sempre mais distante. 

Dias antes:

Nem sempre o tempo é  nosso aliado nestas coisas da fotografia.  O trabalho por turnos, esse bicho tentacular que nos suga socialmente, ao mesmo tempo nos garante o sustento e tantas vezes no tira o sono, é um  bichano de pelúcia que temos de cuidar. Porém, quando chegam as folgas o melhor remédio é sair e casa e caminhar. Deixar-me ir, leve e não pensar em nada, ou em quase nada. Com pouco equipamento (uma garrafa de água e uma peça de fruta), quiçá um telemóvel ou uma pequena máquina fotográfica, só para registar qualquer surpresa que apareça pelo caminho e nos faça sorrir. Faz falta um sorriso, um amplexo e um trilho por descobrir. 

Este é o resultado de uma caminhada descomprometida pelo parque florestal de Monsanto onde encontrei pequenos tesouros que no conforto do lar não seria possível tal deslumbre.

Orquídeas
(Ophrys lutea) erva-vespa


(Ophrys apifera) erva-abelha



(Ophrys bombyliflora) erva mosca




(Barlia robertiana) cravo-de-burro



Reino Fungi




gota-de-tinta  (Coprinus comatus) 


gaiola-das-bruxas (Clathrus ruber)





Briófitas 
Musgos 
(Bryum capillare




(Myurium hochstetteri)




Líquenes
Líquene dos telhados 
(Xanthoria parietina)


Xanthoria calcicola Oxner


Ramalina farinacea





sábado, 4 de abril de 2020

Aquele quintal




Relembro a última vez que a vi,
a minha tia passeava com o meu primo
numa caminhada pelos trilhos quentes de verão,
sorriso leve de sol pintado entre as torres do final de tarde.

Recordo… A Mulher!
lembro-me do seu carrapito e dos tiques de quem estava preparado para tudo,
de avental de guerra, dos braços fortes, feitio firme e justo,
dos prédios altos que manteve e das escadas que aprumou,
das sestas que me obrigou contra a minha vontade de explorador de quintais.

Já agora... O medo!
ainda menino, quando regressava da escola, nos dias de inverno abria as goelas,
Gritava: Tia Virgínia! Tia Virgínia! ecoando receios pelo quintal das videiras em esqueleto,
tal não era o meu pavor dos labirintos surpreendentes da noite,
e corria às apalpadelas até chegar ao abrigo da sua voz por detrás do postigo alto.

Depois...  A aprendizagem.
Tia Virgínia e os seus avisos do sol a pique e do chapéu que me faltava,
da ternura com que colocava alho para aliviar as picada das abelhas,
dos recados para não comer figos nas horas do calor e não subir às nespereiras falsas,
das reprimendas para não judiar a gata Oba que tanto me assolapava de tentação.

Hoje o mundo vive num cerco perigoso;
na despedida não houve abraços, não houve mãos nas mãos, nem beijos,
apenas um caixão fechado e pessoas próximas mas afastadas,
porém, começou a florir outro céu, outra força, noutro quintal de afectos.


sábado, 21 de março de 2020

cerco covid



Dentro do cerco 19

Enclausurados numa esfera que se contrai,
o hábito fechado enamora-se pelo vapor de vidro,
as notícias são trágicas mas já não são notícia,
números e morte numa cruel banalidade virulenta.

O meu pai olha para a rua onde só o sol sorri
a minha mãe varre o chão da cozinha pela vigésima vez,
trabalho a partir de casa numa bolha de mundo virtual,
sitiado pelo músculo tecnológico do distanciamento.

Descubro uma outra casa dentro desta casa
janelas habitadas por uma outra dimensão,
jardins onde cães de trela curta escorregam pelas nuvens
enquanto sombras mascaradas de vizinhos
amparam os prédios do último degrau da solidão.

A primavera que venha de cara e mãos lavadas,
num volver de fé...
este é o cerco esta é a esperança.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Claridade a Mário Piçarra


Assim foi...uma sala cheia de afectos e claridade. O auditório da Fnac de Oeiras foi pequeno para receber tantos amigos e admiradores do Mário Piçarra. O seu último trabalho musical "Claridade" ganhou luz nas vozes dos poetas e dos músicos que deram força aos acordes desenhados pelo Mário Piçarra. Tive oportunidade de descobrir que o Mário para além de excelente músico também era poeta / letrista. Gostei do que ouvi.

De uma forma ou de outra, ele partilhou o seu génio pelos olhos que se inspiravam ao recordar a sua obra, mas acima de tudo, a sua (exelcelente) pessoa. Eu conheci o Mário nas ondas poéticas de Carcavelos e ali estava uma boa pessoa, de sorriso cativante e com uma história pronta a desarmar qualquer um.

Ontem, o Mário esteve naquela sala, humanizou aquelas vozes, tocou nas cordas das guitarras e no tom das outras almas que o saudaram de pé e o que fizeram ecoar nesta e noutra dimensão a sua luz. 

Para ti...



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Kuhmo e as suas aves

Depois de tomarmos um apetitoso pequeno-almoço no Wild Brown Bear em Kuhmo, perguntei quanto custaria uma visita ao abrigo para fotografar passeriformes. Gentilmente, disseram-nos que para nós "tugas pés de chinelo" seria grátis; a verdade é que mais ninguém perguntou o preço (uns modestos 5 euros). Agradecemos e não perdemos tempo. Encoberto pelas árvores o abrigo fotográfico assemelhava-se a uma misteriosa casa de campo de onde poderiam surgir a qualquer momento duendes e elfos. À porta tínhamos à nossa espera tapetes com vassourinhas afiadas para remover toda e qualquer resto de neve ou terra e assim deixar às instalações limpas. Havia também troncos de lenha, talvez para fazer uma fogueira noutro local, uma vez que o abrigo era totalmente feito de madeira. No seu interior não estava frio e o abrigo parecia estar bem isolado. Antes de montarmos os tripés reparámos que o chão à frente da casa estava completamente coberto por cascas de sementes de girassol e mesmo assim ainda espalhámos mais um punhado que retirámos de um saco. As aves apareceram de forma destemida e de apetite insaciável. 



O vistoso dom-fafe foi uma das primeiras aves a medir a distância entre a timidez e a fome.






A bela fêmea de dom-fafe assemalha-se bastante ao nosso priolo, ave endémica de São Miguel nos Açores.


O pica-pau-malhado-grande pousava de tronco em tronco e aguardava pelo melhor momento para se mostrar.




Até que veio  espreitar se havia sementes esquecidas em cima dos troncos.


Já os pequenos lugres surgiam em grandes bandos num canto hipnótico.


Mais tímido, o tentilhão-montês esperava pela melhor oportunidade para se abastecer de sementes no solo.



Quem diria… consegui um exercício de focagem bem sucedido! O verdilhão que atravessou-se à frente do tentilhão, este último olhava para o solo no encalce das oportunidades perdidas.


Sempre esperto e o oportunista, o gaio veio vasculhar a neve em busca de algum tesouro enterrado e encontrou…


Por sua vez, o pintarroxo-de-queixo-preto surgiu num poiso contemplativo e raramente se misturou com as outras aves.



O esquilo-vermelho que por estas paragens ostenta uma coloração mais clara veio degustar as sementes fresquinhas.



Pelas proximidades surgiram também chapim-monte e chapins da lapónia, porém não permaneceram muito tempo no local e a qualidade das fotos não faz jus as aves. Como tal, essas espécies serão contempladas (com uma qualidade mais aceitável…) no próximo artigo sobre a Finlândia - Kuusamo.

** 05-05-2018 Kuhmo - Finlândia **


Agradecimentos



Ana Frade
José Frade
Wild Brown Bear



Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...