quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Inércia



as sanguessugas do tédio

anicham-se no coro cabeludo,

num lento escalpe ao pensamento,

quieto, rendo-me ao lume deste cerco. 

 

o dia começa sempre tarde, 

enrolado, serpente, 

de pernas nos braços, 

e anticoagulantes nas artérias.

 

olho para fora de mim,

lá fora arde a caravana da guerra,

porém, sobrevivem nuvens e praias,  

rápido... que venha a queda do outono!


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

A cadeira do Papa

 

 o sumo pontífice tem a idade do meu pai,

o meu pai, não estando nesta dimensão,

 admiraria  o tema  das jornadas mundiais da juventude:

 "Maria levantou-se e partiu apressadamente"


o meu pai também tinha dificuldades de locomoção,

lembro-me de o deixar de cadeira de rodas para internamento 

e resgatá-lo, 15 dias depois, mais magro, porém de sorriso pronto,

obrigando a cadeira a voar para fora do hospital e lá foi ele pelo seu pé!


tal como o Papa Francisco é um carpinteiro de pontes,

o meu Pai Viriato foi fazedor de sonhos de madeira,

dois bons seres humanos nesta viagem de diferentes veredas, 

qual a diferença ente um Homem santo e um não santo Homem?


nesta e noutras noites, os sinos da igreja ecoam às 21:00

enquanto o vento dança, humanizando árvores, neste e noutros dias.



terça-feira, 1 de agosto de 2023

dia dorme

 

dormes no dia cansado de doença

a luz que flutua nas folhas da cama   

é o reflexo do embalo de Deus

espelho daquele teu olhar.


segunda-feira, 31 de julho de 2023

Rolieiro-de-peito-lilás

Em diferentes momentos do dia, as cores e África refletidas no rolieiro-de-peito-lilás Coracias caudatus, sereno guardião das estradas do Quénia.











Em Samburu no Quénia, o rolieiro-de-peito-lilás (coracias caudatus) reclamava a posse deste tronco e não saia de lá por nada. Mesmo que a escassos metros, passassem de carro uns tipos estranhos, de fala improvável, de hábitos invulgares e máquinas bizarras que o contemplavam como se tivessem encontrado aquela, a dita lança em África.




domingo, 23 de julho de 2023

O pão do tecelão

O tecelão-de-sobrancelhas-brancas | white-browed sparrow-weaver (Plocepasser mahali), veio debicar o pão que estava no cesto a um canto da cozinha. Sem vergonha e com muita confiança, esta foi uma das aves que observei com maior frequência durante a minha viagem ao Quénia.




quinta-feira, 13 de julho de 2023

Sem praia ou sabor

 

A mulher de lua esfinge estende-se no areal

do seu ancoradouro faz-se abrigo, enseada

nas suas coxas morenas, desertas, os limos

salgam-me a vontade de vazar maré.

 

entreabre-se o rubro bivalve salgado,

deixando antever o brinco pérola rosado,

à espera do toque primordial dos dedos,

míngua pelo aconchego na boca de calor.

 

ah que maleita desgraçada esta!

quebranto febril nesta praia de azar,

cabeça falo que me resta, por ti,

perdi olfato e paladar.


agora sustenho este murcho encanto

de ver passar navios, de farol a quebra-mar.

 

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Abençoada febre

 

Não consigo estar quieto!

num frenético desconforto

enrolo-me, cuspo-me para o chão,

idealizo terramotos numa noite eterna.

 

a abençoada febre despe-me dos suores

não gastos em prazeres fêmea.

sou uma mortalha usada e molhada,

nem para charro de rodada me ajeito.

 

com olhar de peixe o médico disse:

“incha, desincha, depois passa!”

pego no receituário prescrito e no verso leio:

“como era se ficasse tudo às escuras para sempre?”



Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...