quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Nick Cave & The Bad Seeds e "Push The Sky Away"



Na primeira faixa do álbum "Push The Sky Away" emerge a sombra de Nick Cave, na minha opinião um registo de génio, talvez mais sereno, de voz mais contida, na construção de ambientes musicais maravilhosos e desassombradamente doces, que nos fazem sentir falta de melodias como estas em dias tão estranhos como estes. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A fala de Amândio Vaga-lume






Por todos os lados, 
os 63 habitantes da Vila adormeciam num sono induzido pelas máquinas mestras
menos um: Amândio Vaga-lume, o homem simples que só falava com as plantas,
jazia inconsciente no meio da plantação onde trabalhava,
após ter tropeçado no garrafão meio vazio de vinho
e apanhado com o cabo da sua enxada no meio da testa,
tombou como um Cristo no epicentro da cultura e por lá ficou.
      
foi nesse instante que surgiram nuvens escuras viúvas de luz,
depois duas síncopes rápidas de apagões.
a terra estremeceu e abriu-se uma fenda como um lanho na carne ferida
emergiram duas pás gigantes em forma de asa de borboleta
que remexeram as entranhas frias da rocha e das raízes mortas.
principiou-se uma erupção metálica concretizada por afiados espigões
que apartaram as margens terrenas em tesouradas mecânicas,
recortando uma cratera nos baldios circundantes.

do interior da boca da terra eclodiu um pequeno painel metálico
em formato de vela  de um qualquer navio pirata
essa estrutura abriu-se num leque e desdobrou-se no dobro do seu tamanho  
depois outra e mais outra, um exercito de velas de fibra metálica perfez um cerco perfeito,
numa extensão de 5 quilómetros, a fronteira da Vila estava traçada.
a fase seguinte demorou poucos segundos a acontecer;
da superfície das velas surgiram órbitas robóticas  
esses instrumentos cegos procuraram captar todo e qualquer feixe de luz
numa fome de insaciável demanda por energia solar.

dos 63 habitantes da Vila,
as máquinas mestras reduziram  para metade os batimentos cardíacos da população adormecida
menos um: o homem simples que só falava com as plantas,
e assim, lentamente, Amândio Vaga-lume recuperou os sentidos e caminhou pelo horto
constatou que em pleno meio dia, a noite era a sua casa e a sua Vila uma prisão.
o perímetro da sua terra estava circunscrito 
por enormes velas metálicas que cresciam em direcção ao céu para resgatar a alma do sol.
sem tirar os olhos das estruturas metálicas que absorviam a luz,
Amândio Vaga-lume via assim a concretização, por parte das máquinas mestras
do seu antigo projecto, aquele sonho perfeito que um dia tivera para a Vila,
antes de um mal do coração lhe ter levado o engenho e a comunicação,
deixando-o sem forma de expressar a fala da tecnologia que tão bem conhecera.
porém nem sempre é bom desejar o que não se conhece;
Amândio Vaga-lume agarrou na enxada e com convicção de quem já muito viu
arrancou pela raiz os girassóis com quem falava e deu por terminado a jorna.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

4 Estações sobre Monsanto:Toutinegra-de-cabeça-preta (Sylvia melanocephala)





Foi interessante observar a ordem e o preceito que este casal de Toutinegras empregou à arte de debicar medronhos. Primeiro o macho validava se a zona estava limpa de outras aves. Se assim fosse, em segurança, lá vinha ele para os ramos mais altos do medronheiro perfurar o fruto desprotegido. Só passado alguns minutos surgia a fêmea nas zonas mais baixas e escondidas da árvore, de onde iniciava a sua tarefa de degustação dos medronhos.  

Quando era para debandar, o casal demonstrava-se afinado e ao mínimo sinal de alerta cada um voada para seu lado. Era vê-los depois numa outra árvore num reencontro saudoso em alegre comunhão de segredos.


sábado, 26 de janeiro de 2013

Gato Salvador

a elegância curva e a destreza esguia,
na forma como te equilibras
entre a aventura e a solidão,
faz-me pensar que tens magia no olhar
quando me pedes que não vá embora,
que continue mais um pouco nesta festa de ritmo certo
numa sintonia para além dos noturnos afetos da lua,
eu contemplo a tua graciosidade de esfinge perfeita
quando tornas-te maior do que os gestos imagináveis,
e de língua áspera por tantos segredos partilhados,
tocas-me na ponta do nariz num arrepio breve.

foi assim que um gato velho salvou-me o dia
tornando as coisas que eu não compeendia
em factos tão simples, meros acasos sem importância; 
ontem voltei ao mesmo local onde o tinha encontrado pela primeira vez,
mas ele já não estava lá.
como um verdadeiro gato de encantar ele vai e volta
e nem sempre permanece sete vezes no mesmo local,
isso explica quase tudo.
 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Ainda de madrugada


sinto um animal vazio a espernear na cama;
ao acender a luz acalmo o torso rebelde dos lençóis,
o candeeiro projeta sombras disformes dos seres que abandonaram os livros de cabeceira,
no canto do quarto, em cima da cadeira manca de um pé,
vejo a dança feliz da roupa que despeja o corpo da sua morada,
mais à frente, dentro da boca do guarda-fatos,


os cabides pendurados ostentam as fragilidades dos tecidos por usar
e por baixo, as gavetas lacradas em pó de alma sussurram nomes por abrir.

ainda de madrugada sento-me na cama e pergunto; "o que faço aqui? "
para depois caminhar descalço por uma casa que começa e termina num corredor,
palmilho as paredes onde mãos de cal fazem-me sentir o frio da urgência
“tenho que sair o quando antes, senão ainda acabo como eles!”
“corpo-casa-corpo”
arrasto-me até a extremidade mais distante deste casulo,
onde habito, às vezes, tantas outras vidas fora de mim,
num ato rápido recorro a uma mortalha liquida para incentivar a lucidez,
a torneira principia um dialogo que termina no espelho em bofetadas de água;
“casa-corpo-casa”
a lâmina de barbear corta a pele
e só assim consigo terminar"-me" por hoje
o que ontem comecei.






terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A tua casa





espero que acordes e quando acordares
espero vejas e quando vires
espero que leias e quando tiveres lido
espero que sintas...
que não estás só
mesmo que nunca lá tenhas entrado;

a casa de todas as casas
não tem uma só porta nem uma única janela,
não tem vista para o mar nem está virada para as estrelas,
a casa de todas as casas não é a tua morada
só porque está lá e porque existe mau tempo cá fora
mas sim porque serve-te de abrigo,
mesmo que não esteja a chover e não te apeteça ouvir as suas palavras.

um dia quando acordares vais dizer-me como te sentes:
no aconchego e na eterna dúvida de lá estar.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Natal é já amanhã


O Natal já passou e já estou cheio de saudades. Sim é verdade. Que mais poderia fazer no dia 24 de Dezembro? Para além de sonhos e rabanadas para os quais não tenho jeitinho nenhum e ver televisão vegetativa não seria uma solução a considerar. Ora, posto isto, que  melhor dia poderia eu escolher para fotografar aves?

Não fui sozinho em mais esta visita à Ponta da Erva. Segui acompanhado pelo meu amigo Frade companheiro neste estado de espírito de vigilante observador da natureza. Nas nossas incessantes buscas pela lezíria fomos brindados por uma luz graciosa e por umas quantas aves que nos fizeram lembrar que afinal o Natal é já amanhã.

O Chapim-de-faces-pretas, um autêntico mascarilha irrequieto, assaltou o canavial da lezíria para depois tentar fintar as objectivas enquanto pulava entre canas.


O Papa-ratos andava tão entretido na sua caça quotidiana que quase gerou uma crise de identidade.  Nesta sequência de imagens o animal não fez jus ao nome ao contradizer a nomenclatura, quando em vez de um rato apanhou uma rã (acho eu). Depois disto, que me desculpem os ornitólogos, para mim esta ave ficou baptizada como sendo o Papa-rãs.


Fotografar a Coruja-do-Nabal era um sonho antigo. Esta extraordinária rapina nocturna mas de hábitos diurnos, voou à nossa frente depois de nos piscar os seus magníficos olhos amarelos umas quantas vezes, como quem diz: despachem-se, tenho mais que fazer, a ceia da consoada é daqui a pouco.


                                       
Depois disto voámos para casa onde continuei com esta mania de dar fala aos animais.

Dos mainás na praia de Carcavelos até oftalmologia

  mainá-de-crista Acridotheres cristatellus Nada melhor do que transformar uma ida à praia em várias coisas diferentes. Foi o que fiz naquel...