quinta-feira, 31 de outubro de 2024

o espinho

 

o corpo da madrugada 

incendeia o suor 

das bocas ao toque

no óxido das gaiolas 


as nuvens libertam-se

do céu enferrujado 

e as aves beijam-se

uma última vez


esqueci-me de te dizer:

as chaves orfãs de casa

estão guardadas no coração 

da porta - junto ao cacto centenário


quando entrares

não faças barulho

cuidado com os espinhos

a morte morreu.



quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Ontem na Damaia

 

pela goela do bairro 

resvalam tiros 

ardem autocarros 

queimam-se luas


caem fogueiras na rua 

a morte é sequestrada

quando a razão não tem cor

a vida é una.




domingo, 20 de outubro de 2024

6 meses depois da tua partida

 


a lágrima percorre a raiz

na palma da mão

desenha a curva 

perfeita das tuas iniciais. 


pergunto a Deus

o que fez de ti?

para além de minha Mãe forte 

meu eu incompleto.



sábado, 19 de outubro de 2024

O enganado

 


Não volto a adiar a alma do vinho

Abro uma garrafa agora mesmo!

Não volto a ter medo de começo

mesmo que persinta que vou sangrar no fim.

 

Libertarei todas as lágrimas incomodas e matreiras 

sempre que me apetecer, esteja onde estiver,

e abrirei as janelas do riso em uivo ou gargalhada 

mesmo tendo a boca inchada com crostas de sal.

 

Digo e repito: amo-te! talvez com a mesma facilidade

com que chego aos pés com os dedos das mãos,

criticarei os actos alheios sem pejo da circunstância

com a mesma inocência de uma criança reguila.

 

Rapo o cabelo, pinto a barba, darei azo a todos os devaneios

na urgência com que beijo este espelho partido,

esperando que alguém do outro lado me estremeça,

ou me leve para a terra "do que não fui capaz de fazer"

 

Se tiver que ser, que seja de pé, com amor.

não volto a contar as balas de um velho revolver,

ou remediar as solas dos sapatos antevendo pedradas nas costas

sabes de uma coisa? 

 

A última vez que a morte passou por estes lados

não fez parcimónia nem poupanças.


Esgravatar

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