Terras de Miranda, outubro de 2020. O outono não dava sinais da sua chegada. Por estas terras as temperaturas estavam amenas e céu luminoso. A vertigem dos vales e das escarpas
acidentadas, com gargantas de pedra afiada, deixam antever a força do rio Douro.
Pelos íngremes penhascos os ecos perpetuavam-se no tempo com arrasto de múltiplas
repetições. Uma palavra aqui dita é recapitulada até se perder na próxima curva
do rio. O Douro transportava a saudade numa voz sussurrante e nós éramos pequenos
espectadores deste anfiteatro pétreo. Esta serpente líquida que se
agigantava aos meus pés, sulcava as escarpas da montanha com o seu dorso dourado.
Ao longe contemplava alguns bichos que reclamavam estes tronos montanhosos. Entrei num
abrigo de madeira, montei a minha máquina de guardar momento e deixei-me
estar quieto. Passados poucos instantes chegou a águia dona destas escarpas.
A águia-de-bonelli ou águia-perdigueira (Aquila fasciata) é residente no nosso território. Pode ser observada a norte, onde constrói ninhos em escarpas e a sul, onde nidifica em árvores de grande porte. É uma ave de rapina cuja a envergadura pode atingir 1,65 metros e pesar até 3 quilos. A vocalização assemelha-se ténue latido.
O casal das águia-de-bonelli caça em conjunto e alimenta-se de coelhos, ratos, perdizes e pombos. No ninho podem ter uma a duas crias, na melhor das hipóteses, cada individuo pode atingir 25 anos. Segundo uma estimativa, em 2011 existiriam 123 casais em Portugal. Mediante o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, o estatuto de conservação desta ave é: Em perigo.

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