quarta-feira, 24 de novembro de 2021

O prédio da D.ª Rosa

 



No prédio da D.ª Rosa

outrora as novidades eram muitas,

ao desafio, no parapeito da janela,

teciam-se histórias fantásticas.


era a gata paraquedista da bonita enfermeira,

ou o lunático que observava os pássaros à janela,

até os policias reformados de humores variáveis

tinham a sua graça de bigode musculado.


este ano o prédio ocupou o espaço dos corpos,

vagaram vozes e esmoreceram-se gestos,

as casas moldam-se ao vazio e as portas suspiram de luto,

já não há roupa colorida a secar nos estendais.


o percurso do sol deixou marcas,

sacrificou o mármore com veios negros,

agora faltam passos pela escada acima,

sonegados pela sombra maldita desta pandemia.


hoje, no prédio, a maior novidade

é a subtracção do canto dos vivos,

este ano partiram 5 vizinhos e sabe-se lá quantos mais iram;

e já não é a D.ª Rosa e o seu querido marido que o dizem:


"bom tarde vizinho!

o correio anda atrasado, já não chega para as encomendas"


António Lobo Antunes

Na sua boca as palavras tinham outro sabor. As pausas, os silêncios, conferiam um significado às sombras que deslizavam nas conversas. Dava ...