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Coração Duplo por Sérgio Guerreiro |
A 31
de Maio - Quis o destino que acabasse a leitura destes contos num banco do
Hospital de Cascais, numa consulta de urgência com a minha mãe. O nosso coração
também habita noutros corações. A minha mãe saiu melhor dessa consulta e com a
medicação reformulada. Os nossos olhos também descansam em outras mãos. Fomos
para casa mais calmos, sabendo que por agora, algo poderia melhor. Haja
esperança. O coração da minha mãe é maior que a caixa que o sustenta e isso é
um problema com que temos que viver. Um coração duplo. Este livro estava lido mas
não fechado.
Os 33 contos que completam o Coração
Duplo de Marcel Schwob viajam pelos campos fantásticos da ficção-científica, do
terror gótico, da guerra do amor sangrento, da amizade desfeita, com os estilhaços brutais das decisões
dos seus intervenientes. Os danos colaterais da eterna batalha entre o bem e o
mal dos actos tomados. Os estilhaços de vidro que se cravam na cara amplificadando
um erro e recordando-o com uma cicatriz que brilha de dor. As areias movediças em
que entramos cientes que nos vão enrolar, mas que também nos levarão a atravessar, ou não,
para outra margem. O livre-arbítrio e o erro evidenciam a nossa condição de ser
humano, como pecador e como benfeitor, capaz do melhor e do pior. Eu sei que
tudo isto parece um lugar comum, contudo a realidade é uma ilha
estranha.
Deste excelente livro destaco os seguintes contos:
- A Máscara
- Um Esqueleto
- Terror Futuro
- Arrasa Corações
- O Hospital
- O Comboio 081
- Um Homem Duplo
- A Tamanca
- Flor de Cinco Pedras
No meio de uma pandemia que
parece não querer dar tréguas nem sinais de abrandar, infelizmente deixei a
leitura para trás. Nos tempos em que ia para o trabalho de transportes públicos,
era sagrada aquela hora onde entrava no corpo de um livro, nem que fosse para
me esconder da multidão. Em casa não sinto necessidade de me esconder, e quiçá distraído
pelos ecrãs, viajo pelas tecnologias e com isso leio menos. Mas é bom ter
noção de que me falta tanto ler. E que há tantos livros que nunca me vão passar pelos olhos, tivesse eu marcada para breve uma viagem à volta ao mundo de comboio, fechado numa cabina com uma chaise longue em veludo, rodeado por uma biblioteca, e a
história seria outra ou talvez não.
Próximas leituras: A Peste de Albert Camus